Gilmar Marcílio: vivacidade e experiência - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Opinião19/06/2020 | 07h00Atualizada em 19/06/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: vivacidade e experiência

“Quem me dera aquela idade, sabendo o que sei hoje!”, diz a personagem do conto A segunda vida, de Machado de Assis. Desejo que permeia dez entre dez almas. Sonhamos todos, em algum momento, ter a vivacidade dos verdes anos, mas a experiência dos tempos de maturidade. Queremos o melhor dos dois mundos, ideal que não pode (e não deve) ser alcançado. Explica-se. Ao longo da trama, José Maria, que a protagoniza, vai tecendo considerações que tentam mostrar aos seus interlocutores como seria perfeita a existência que combinasse esses expedientes. Conversa com um, com outro e, ao encerrar a narrativa, descobre-se que o que nos está reservado, sem o ensaio prévio e a sabedoria acumulada, assim deverá permanecer. As razões são muitas e a mais plausível delas é que, aquinhoados pelo entendimento a priori, deixaríamos de nos entregar, por medo ou prudência, a grande número de experiências que, ao fim e ao cabo, se revelarão vitais para a construção da nossa personalidade. É o desconhecido, comprovadamente, que fornece o tempero, dando-lhe o gosto da expectativa, sem a qual tudo pareceria enfadonhamente repetitivo.

Leia mais
Gilmar Marcílio: como fica o amor?
Gilmar Marcílio: novos limites

Pense comigo: qual é a graça de algo se o seu final já tiver sido revelado? O acúmulo de ações e sensações que vão sendo depositadas dentro de nós clamam por esquecimento. O fulgor da juventude pede aventura, risco. Mais velhos, sonhamos com o aquietamento, a pausa, certa lassidão. É a biologia se adiantando às emoções. Saber de antemão costuma até evitar certos erros, mas não nos permite a reflexão robusta sobre o que está acontecendo. Ignorar a continuidade dos enredos é pura benção. O oposto seria verdadeiro infortúnio a nos jogar contra os muros da desistência. Se a paixão é praticamente um castigo a que os hormônios nos submetem, por outro lado representa a capacidade de romper com a estabilidade, muitas vezes sinônimo de tédio. Então, esse afã de habitar o corpo na plenitude e uma mente saturada de aprendizado, só tende a resultar em frustração. É interessante perceber como o bruxo do Cosme Velho vai desencantando sua criatura, a ponto de estabelecer rascantes diálogos com o diabo. Este lhe mostra que o ideal que estava renegando se constitui no bem mais precioso.

Em outras palavras: a natureza faz e não cabe ao homem desfazer. Nada deve ser antecipado, sob o risco de embotar nossos olhos, incitando-nos a tomar decisões equivocadas. É preciso deixar fluir o amor e o ódio, a alegria e o sofrimento. Ainda sobre o ensinamento do texto: ser como os lírios do campo, disponíveis para a paisagem do agora. Resista a tentação de espiar o futuro. A única colheita desejável é a do presente, com seu dissabores e contentamentos.

Leia também
VÍDEO: profissionais da UBS Reolon e da Guarda Municipal gravam vídeo com mensagem de esperança em Caxias
Orquestra Sinfônica da UCS disponibiliza segundo CD no Spotify
Lucas Leite mostra processo de criação do projeto Retratos da Quarentena em live nesta sexta

 
 
 
 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros