Longe da família: recuperada da covid-19, Andressa não vê o filho há mais de um mês em Caxias do Sul - Pioneiro

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Vida alterada23/05/2020 | 08h00Atualizada em 23/05/2020 | 08h00

Longe da família: recuperada da covid-19, Andressa não vê o filho há mais de um mês em Caxias do Sul

Profissionais da saúde que buscaram o isolamento contam como é enfrentar a solidão e os dilemas da pandemia

Longe da família: recuperada da covid-19, Andressa não vê o filho há mais de um mês em Caxias do Sul Arquivo pessoal/Divulgação
Andressa Sobrinho é técnica em enfermagem e deixou de manter contato físico com familiares Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Além do risco do adoecimento por covid-19, profissionais da saúde têm abdicado da vida em família para viver um isolamento voluntário, às vezes obrigatório, numa tentativa de preservar pais, filhos e irmãos. São médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem que aprendem a conviver com a solidão e a lidar com sentimentos conflitantes. 

Não há uma estimativa de quantos moram atualmente em hotéis ou estão sozinhos em casa na Serra, mas esse número tenderá a crescer conforme a pandemia avançar. A sensação de que qualquer um pode ser a próxima vítima não afeta apenas as equipes da linha de frente na pandemia, mas também setores sem relação direta com a doença, uma vez que não existe uma área segura. O principal temor é contrair o vírus e contaminar um parente ou amigo.

 Até sexta-feira (22), dos 126 casos confirmados de covid-19 somente em Caxias do Sul, 49 eram de pessoas que atuam na rede de saúde. 

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Nesta reportagem, três profissionais da saúde abrem seus corações para falar sobre essa rotina anormal. Confira o drama vivido por Andressa:

O abraço que ficou para depois

Um bolo como presente na porta de casa e um abraço que não houve entre dois irmãos. Entre tantos detalhes, esse momento marcou a solidão recheada de tristeza e esperança da técnica em enfermagem Andressa da Silva Sobrinho, 30 anos, em Caxias do Sul. Há mais um mês, ela vive só em um apartamento, de onde só sai para ir ao trabalho num hospital.

O isolamento foi decisão voluntária para preservar o filho Adrian, nove anos, e os demais familiares. Como funcionária da saúde, não queria trazer a pandemia para casa. Parecia uma premonição. Na segunda quinzena de março, Andressa sentiu sintomas da covid-19. Foi um baque receber o diagnóstico. O vírus havia sido contraído no hospital. No corpo, a certeza de que não era um resfriado qualquer. 

 —  Não tive falta de ar, mas muita dor no peito, como se tivessem me apertando, ficava com a respiração pesada, tive perda de peso e um pouco de dor de cabeça, diarreia e dor de garganta. Mas o pior era a dor no peito  —  relembra.

A técnica de enfermagem Andressa da Silva Sobrinho mora sozinha para evitar o contágio por covid-19 do filho Adrian (na foto) e da mãe dela.<!-- NICAID(14505380) -->
Adrian está sem contato com a mãe desde o final de marçoFoto: Arquivo pessoal / Divulgação

Fragilizada, mas firme para a guerra particular, aguentou a provação afastada de todos. Antes da doença, Andressa já havia optado pela decisão que considera a mais tortuosa de sua vida e encaminhou o único filho para os cuidados da mãe, Lucia Terezinha da Silva, 65. Sente-se culpada por não ter uma outra saída, por estar longe do menino. Os dois não se desgrudavam. 

A técnica em enfermagem é do tipo de pessoa ativa, pratica esportes, não gosta de ficar parada. Trancada em casa, enfrentava o dilema de quem não despreza o risco da doença. O vírus poderia piorar seu estado de saúde? Outros poderiam ficar doentes por sua causa? Andressa não podia levar nem o lixo para fora porque tinha medo de prejudicar os vizinhos. Nesse período de quarentena, criou rotinas para vencer os pensamentos negativos. Assistia filmes, lia livros, conversava com familiares pela internet. Felizmente, os sintomas foram rareando até desaparecer. No dia 7 de maio, depois de longas duas semanas, atravessava o limite além de quatro paredes com autorização dos médicos. Tocou a maçaneta da porta com um paninho ensopado no álcool. De volta às ruas, acertou o retorno ao trabalho.

Mesmo recuperada, Andressa percebeu que manter-se afastada da família era mais do que uma prevenção, era uma questão de respeito. Teme carregar uma gotícula na pele ou na roupa. Não sabe se pode contrair novamente a doença, não sabe se desenvolveu os anticorpos. É tudo incerto e ninguém tem uma resposta concreta. Então, dedica-se ao trabalho e reflete na calmaria do lar.

Há mais de um mês, não toca o filho, não abraça a mãe e os irmãos Carlos André e Maria Andrea. Ela tenta descrever como é essa saudade de Adrian num áudio à reportagem, mas o choro entrecorta as palavras.

 —  Procuro ter a mente ocupada, não ficar pensando, a saudade dói, dói muito. Eu quase nunca...

Foi por isso que bolo deixado por Carlos André na porta de casa numa tarde qualquer da quarentena é a lembrança mais viva. Uma prova de amor da família que lhe acompanha nos momentos mais duros. 

 —  Me sentiria muito culpada se minha mãe e meu filho tivessem pego o vírus por minha causa. É sofrido, mas o objetivo é ver eles bem. O amor por eles é maior e supera todas as coisas. É isso que me deixa forte.

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