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Opinião08/05/2020 | 07h00Atualizada em 08/05/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: construção

Quarenta ou cinquenta anos podem representar tão somente a corrosão do corpo e uma sucessão de relacionamentos que deixam a parca memória de episódios bons e ruins

Tantas vezes, equivocadamente, cremos que viver é ir gastando-se ao sabor das circunstâncias. Que as aprendizagens se fazem à revelia e a consciência é um apêndice secundário, exigindo uma entrega passiva, imobilizante. Quarenta ou cinquenta anos podem representar tão somente a corrosão do corpo e uma sucessão de relacionamentos que deixam a parca memória de episódios bons e ruins. Não precisa ser assim, claro, e a melhor forma de fugir dessa armadilha existencial é continuar se construindo lentamente, com olhar cuidadoso. Encontrar vai além de esbarrar no outro, uma simples troca de palavras ou contatos epidérmicos. Acaba por definir, em diversas situações, a maneira como nos portaremos doravante. A palavra vigilância ganha, em mim, quase a dimensão do sagrado. Não podemos esmorecer, sob o risco de sermos conduzidos por um senso comum anestesiante. A trajetória até se chegar à excelência é sempre individual, prescinde de manuais e é impossível ser copiada de alguém. Porém, cercar-se de pessoas sábias, que compõem seus dias com a serenidade que revigora a alma, sem se deixar atropelar pelas circunstâncias, é um bom exercício na depuração das ações, das mais banais às mais complexas.

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A imagem de tijolos sendo sobrepostos ilustra com felicidade a nossa condição, como prédios que se erguem a partir do nada em busca de uma identidade. Só que, entre eles, há de se colocar uma grossa camada de argamassa, evitando que a edificação desmorone. É tolice excluir desse processo as experiências que consideramos ruins. Quando vividas com lucidez e postas sob o prisma da necessidade adequada ao momento, revelam-se valiosos condutores na depuração da personalidade. Agindo e pensando corretamente, teremos a nossa disposição um material precioso para, chegando à velhice, nos sentirmos satisfeitos com o trabalho realizado. A noção de certo e errado é cambiante e raramente pode ser um balizador que determina o sucesso ou o fracasso. Movidos pela contingência, a certeza de termos dado nosso melhor nos gradua e impulsiona à fase seguinte.

Essa alteração de rota, a inexistência de um destino fechado em si mesmo, é que nos distingue dos animais. Façamos valer o que nos é oferecido. É pouco inteligente esperar pelas crises e só depois fazer esse tipo de exame interior. O convite (e o compromisso) devem ser permanentes. Aliás, a chance das mudanças perdurarem é maior se desobedecem ao imperativo do medo e da coação. Somos livres e capazes de reescrever praticamente todos os roteiros. Basta alguma inconformidade e o gosto renovado por se autoavaliar. Que não se busque unicamente o perfeito. Só precisamos não nos contentar com o que a natureza nos entrega cegamente. Mãos à obra. O divino é o humano se transformando.

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