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Opinião17/04/2020 | 07h00Atualizada em 17/04/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: apostando na ignorância

O  resultado disso é que passei o mês com mais serenidade, minimizando o pânico

Um olhar sobre a história nos permite compreender que tudo se dá em ciclos. Apogeu e declínio. Que podem durar alguns anos ou séculos. Isso evita a nossa tendência em alimentar o pessimismo quando as coisas parecem descarrilhar. Há momentos, no entanto, em que a ignorância grassa de maneira tão exponencial que nos perguntamos: isso vai nos levar para o abismo? Não sou exatamente o que se chama de uma pessoa bem informada. Vejo nos amigos certo olhar de espanto ao se deparar com meu desconhecimento de alguns fatos recentes. Permito-me apenas uma pequena dose diária. Neste período de reclusão, assistir a raros noticiários. A leitura de uma revista semanal e o que a internet nos dá acesso pareceu-me plenamente suficiente. O resultado disso é que passei o mês com mais serenidade, minimizando o pânico. A manutenção de práticas de sobrevivência adaptadas ao que está acontecendo parece ser o necessário para contribuir com a preservação da nossa saúde e, nesta situação que vivemos, com a dos outros. Porém, mesmo abstendo-me, respingam, aqui e ali, declarações públicas que me deixam estarrecido. Estaremos vivendo, afinal, uma nova idade das trevas? A ascensão de uma direita ultraconservadora em países com tradição solidamente democrática sinaliza uma mudança de paradigma.

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Discursos xenofóbicos, racistas e preconceituosos têm obtido ressonância em espaços até então salvaguardados da estupidez. Pessoas consideradas doutas parecem reproduzir, em determinados locais, essa fala raivosa. Desconsideram qualquer contraponto e muito menos a possibilidade de buscar no outro uma alternativa de pensamento. As grandes vítimas disso são a imprensa e a arte. A tentativa de escamotear o senso crítico e a criação passa a ser uma espécie de macarthismo contemporâneo. Aplaude-se de pé ideias não corroboradas pela ciência. Apela-se para a religião, apesar do bom senso nos mandar buscar amparo na racionalidade. Há uma autorização implícita para a expansão da barbárie. Altos mandatários veem seus séquitos aumentando a olhos vistos. Para cada estultícia, um coro de admiradores sempre pronto a aplaudir. Preocupa-me o fato de perceber, a cada dia que passa, o quanto ficamos vulneráveis diante de movimentos que antes pareciam caricatos e agora ganham status de legitimidade.

Repito: tendo a ser otimista, mas precisamos ter a atenção redobrada. Na medida em que alguém que comanda o destino de milhões se refocila com a própria imbecilidade, cuidado! E aqui não se está falando de estados atrasados, reféns da manipulação de ditadores que se perpetuam no poder. É onde a liberdade dava indícios de estar alicerçada na pluralidade e no confronto salutar de opiniões divergentes. Será exagero dizer que nos encaminhamos para uma minoridade intelectual?

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