Marcos Kirst: o apagadouro da memória - Pioneiro

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Opinião09/03/2020 | 07h00Atualizada em 09/03/2020 | 08h52

Marcos Kirst: o apagadouro da memória

Mas onde terá ido parar todo aquele patrimônio, tanto o físico quanto o intangível, que não consta nas listas?

Furungando dia desses em uma caixa de guardados antigos, atrás de alguma velharia qualquer, pois que sou um guardador de memorabília pessoal, especialmente papeis, deparei com uma lista compilada por mim no início da década de 1990, na qual eu elencava o patrimônio adquirido por meio do meu trabalho jornalístico nos primeiros anos de atividade profissional. Constavam ali o televisor 21 polegadas (sensação da época, mesmo que ainda trouxesse o tubo acoplado às costas), o refrigerador com freezer anexo em porta individual (uau!), o aparelho de videocassete (as idas e vindas à locadora de fitas para disputar os melhores títulos no final de semana e devolver a pilha com a metade não assistida na segunda-feira integravam o ritual de tarefas perenes), o Chevette branco 1990 ainda em prestações após a entrega do antigo Chevette 1982 como entrada (a título de informação: Chevettes eram veículos automotores bastante populares naquela era, e cumpriam a função de deslocar seus proprietários de um lugar ao outro, da mesma forma como os automóveis atuais) e... uma enciclopédia!

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Sim, a garbosa enciclopédia, composta por 20 volumosos volumes encadernados em capa dura, que ocupavam duas fileiras inteiras da prateleira da sala, integrava a lista do patrimônio significativo adquirido com o suor de minha testa e de meus dedos nas teclas da máquina de escrever ao longo dos anos, produzindo textos que resultavam em salário. Foi uma aquisição longamente planejada, as contas na ponta do lápis para verificar se as prestações caberiam dentro do orçamento doméstico que já se comprometia com o pagamento do Chevette 1990 e o videocassete (este, tão indispensável quanto os demais itens). A chegada dos volumes, via caminhão de transportadora estacionado defronte à porta do prédio, causou a mesma sensação de excitação que se apossava de nós, habitantes daqueles tempos remotos, quando da entrega anual da nova lista telefônica.

Como não guardei nenhum papelzinho a respeito, sequer lembro que fim levou minha tão valorosa enciclopédia de 20 volumosos volumes encadernados em capa dura, que me ensinava tudo sobre o reinado da Rainha Vitória e sobre as principais obras de Machado de Assis. Sumiu-se no apagadouro que engole as coisas e os fatos que vão perdendo relevância ao longo do tempo. Sua memória se mantém recuperada em uma antiga lista guardada em velhas caixas, descoberta ao acaso. Mas onde terá ido parar todo aquele patrimônio, tanto o físico quanto o intangível, que não consta nas listas? Para permanecer, o segredo é manter a relevância.

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