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Opinião27/03/2020 | 17h42Atualizada em 27/03/2020 | 17h42

André Costantin: meus velhos

Nestes tempos da pandemia, dia sim dia não vou repassando os contatos dos meus velhos, para ver se estão todos em ordem

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

"Olá Edu, firme aí no Berizinho?" (Faz 30 anos que Eduardo vive solitário nos rochedos do Matadeiro, Ilha de Santa Catarina, no menor e talvez único sebo de primorosa seleção literária feito de tábuas batidas pelas marés do Atlântico-Sul.)

"Dá-lhe Tougs, tudo certo aí em FX?" (Monsenhor Touguinha, grande currículo, vida monástica na Itália, gerente do cabaré mais badalado de Porto Alegre, vive de luz e cigarro em algum lugar desse Brasil, mas nos últimos meses está em um paradouro da BR-386 em Fontoura Xavier.)

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"Fala João! Tá na lida das pedras? Deixa te dizer, peguei duas traíras aqui perto de casa. Mas traíra!". (João Bez Batti é o escultor dos basaltos, sonha, bate, corta, desbasta, come pedras; anda em diálogos com Picasso, me contou, produzindo o acervo da exposição dos seus 80 anos.)

Nestes tempos da pandemia, dia sim dia não vou repassando os contatos dos meus velhos, para ver se estão todos em ordem. Não muda nada, isso. Mas sabê-los bem, na luta, me ajuda. E não são poucos, os meus velhos. Uns de mais idade, outros ali onde logo andarei também. Mas muito vivos, mais vivos do que eu ou do que o seu jovem vizinho de trinta anos, jogador de videogame.

Vou telefonar para Terezinha, a cabeleira mais antiga dos lados do Kaiser. Minha mãe. Quantas memórias ainda por contar e registrar. O bairro nascente, a migração para a cidade, os tempos na colônia. Aquela história do nono picado no pescoço por uma serpente, ele e os cães, visitando a morte. Depois a pele ficando manchada igual a cobra.

Meu ofício de documentarista me levou sempre aos velhos. Tanta vida, tanta memória – muitas eu consegui narrar nos meus trabalhos; outras ainda quereria. Quando um se vai, tremo nas bases. Filmei e gravei em tempo as palavras de nona Rosa, a última falante do Cimbro, um raro idioma de imigração. Mas perdi a grande aventura de Adrian entre meus dedos e hesitações, o velho inglês sertanista da Amazônia.

Por isso, Tougs, aguenta o tirão aí. Tens ainda que narrar aquela história do garoto do sertão do Ceará, de nome Amor. As cenas da casa de tolerância. Caro Oli, vamos escrever o livro “A melhor comida do mundo, segundo Oliviero Pluviano”. Transformar o Gaia num barco-museu itinerante do Tapajós.

Meus velhos, onde andam? Preciso de vocês. Daí vem parte do meu desassossego, no galope desse vírus tão cruel com os anciãos. Meu nojo desta figura que vem à tevê em rede nacional vomitar um desprezo pela vida dos velhos. Triste homem que nada sabe do tempo, da sabedoria do tempo.

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