André Costantin: Adsuida - Pioneiro

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Opinião20/02/2020 | 07h00Atualizada em 20/02/2020 | 07h00

André Costantin: Adsuida

Não sei ao certo o significado desta palavra, leitor

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Não sei ao certo o significado desta palavra – adsuida –, leitor. Talvez ela nem exista exatamente como tal. Mas foi o som dessa palavra que meus ouvidos puderam ouvir da boca daquele homem negro na calçada, melecado de iogurte. Como uma criança que abre a tampa do iogurte com ânsia e uma parte do líquido branquicento se perde pelos caminhos do rosto. De que idioma seria?

O fato é que eu ia entrando no carro carregando um saco plástico grande, cheio de água, e dentro do saco tinha um peixe. Uma carpa Koi, japonesa, branca rajada de preto com uma mancha laranja no dorso. Putaquepariu! – a vida um caos, o atraso das minhas coisas, o país infestado de fascistas novatos afundando no esgoto da moral autoritária e eu atrás de um peixe no centro da cidade!

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Eu de chapéu panamá e com meus óculos escuros de armação de madeira, feito um estrangeiro. Ou talvez um médico bacana. Atravessando a rua com um peixe na mão. E o cara sentado no chão da calçada traçando dois ou três iogurtes com umas trouxas em volta. Mas o fato é também que eu não entrava num sedã de 250 cavalos ou uma BMW. Era o meu Fusca verde 72 com teias de aranha nas ventarolas.

Daí que o cara dos iogurtes certo que nem me levou a sério. Pensou que tinha reencarnado no outro planeta. Lembrei das sacolas do lixo de casa já fedendo no porta-malas e fui despejá-las nos contêineres de primeiro mundo, instalados ao sul do terceiro mundo. Esses caras que estão chegando aqui acho que erraram o mapa. Mais ou menos como aconteceu com meu bisavô.

Antes de me empacotar no banco do Fusca, levo a mão no bolso de trás e alcanço três moedas de Real para o cara. “Fome”, diz ele, com uma pronúncia nasalada. Entro no carro. Sim, é um carro. Olho se o peixe tá firme no banco de trás. Dou a partida. A água do peixe trepida no giro do velho motor boxer. O homem amassa os potes para lamber até o fundo. Levo a mão no outro bolso e descubro mais alguma coisa, quinze ou vinte pilas, que desta vez eu entrego pela janela.

Faço sinais. Mas para ele tanto faz se três ou vinte fiorins. Devem valer uns iogurtes. E aí que ele se aproxima um tanto mais e me diz: “adsuida”. Que poderia ser tanto “obrigado” como “me ajuda seu branquelo de merda”. Hasta la vista. Quem sabe amanhã ou depois nos encontramos pela rua. Quem nunca teve medo de ir parar na rua? Só quem é podre de rico. Ou quem tem muito talento. E sorte. Não deve ser o caso de um cara que vai atrás de uma carpa num sábado de manhã com o mundo desabando em volta.

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