André Costantin: campo minado - Pioneiro

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Opinião23/01/2020 | 09h33

André Costantin: campo minado

(Ou: Carta ao meu censor)

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

8 de fevereiro, 1945: “Pode acontecer, por exemplo, o seguinte: você se esconde atrás de um arbusto. Naturalmente apoiará a mão em um galho. Há um fino fio de arame ligado a esse galho. Esse arame aciona um igniter (...) O resultado é a explosão de três cargas colocadas embaixo de um monte de pedras ali perto da arvorezinha. Em vista disso, você, meu caro leitor, sai desse baixo mundo para outro provavelmente melhor.”

Assim começa um dos relatos de Crônicas da guerra na Itália, de Rubem Braga (1913-1990). O livro reúne textos publicados em 1945 pelo jornal Diário Carioca, quando o escritor passou os meses finais da Segunda Guerra na Itália. São emocionantes histórias de guerra à margem da grande história ocidental, vividas por combatentes de uma nação periférica contra os nazistas em solo italiano. O Brasil foi à guerra.

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Guardo este livro (Editora Record, 2014), que flutua pela escrivaninha e o criado-mudo; às vezes o alcanço, leio uma crônica, releio outra, fruindo o gênio do narrador, que nos leva pelo coração ao teatro da guerra. Ontem à noite, li passagem que inicia com o parágrafo descrito acima, intitulada Plantações. Nela o escritor relata o drama das minas terrestres dos alemães, que infestavam o chão. Em muitas frentes de combate, eram plantadas de um modo caótico, sem estratégias para possíveis retomadas de territórios conquistados, sugerindo uma ação de retirada – prenúncio da derrota.

O tema me pareceu familiar nestes dias em que tive claros – e duros – sinais de que estou sendo vigiado em minhas expressões, censurado e cerceado em meus projetos de trabalho pela patrulha ideológica de sinistros monges evangélicos e outras eminências pardas que assaltam o país. Talvez um dia este cronista ao sul do quintal do mundo possa contar as histórias desse campo minado, anacrônico e sem sentido, plantado na cultura brasileira.

Enquanto isso, encolhido na minha casamata de pinheiro, ofereço aos meus possíveis leitores – e censores – outro trecho da crônica de Rubem Braga: “E o problema então – está chegando a hora de decidir esse problema – será fazer que o nazista não volte. Porque ele pode voltar com outro nome, na Alemanha ou fora da Alemanha. Ele pode brotar outra vez do chão – na Europa, ou na Ásia, ou em nossa América. O fascismo é uma praga difícil de exterminar. É o preço que os povos pagam pela própria desídia. E contra ele só há um remédio verdadeiro: conquistar e manter a todo custo a liberdade do homem.”

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