André Costantin: Museu do Tijolo - Pioneiro

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Opinião22/11/2019 | 15h50Atualizada em 22/11/2019 | 15h50

André Costantin: Museu do Tijolo

Sempre surge, por estes desertos urbanos, algum sopro de delicadeza

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Dias atrás entrei pelas cidades do Alto Vale do Taquari, com três amigos, até chegar a Arvorezinha. Fomos conhecer e registrar imagens de um inusitado projeto: o Museu do Tijolo. O novo museu será, possivelmente, o único dedicado ao tijolo no Brasil ou até nas Américas.

A perspectiva da viagem me fascinou. Habitei e construí casas de tijolos maciços aparentes, reusados, compondo volumes e formas com velhas madeiras de pinheiro e telhas francesas — os materiais construtivos mais comuns que a arquitetura regional usou, adaptou, glorificou e depois abandonou em ruínas de cidades que apagam a si mesmas.

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Mas sempre surge, por estes desertos urbanos, algum sopro de delicadeza, uma visão de futuro, ancorada nos aportes simbólicos do passado. Em Arvorezinha, coube a um emprendedor do ramo da cerâmica mover as pás do sonho e, depois, construir — com paciência de oleiro — a proposta e a obra de um original Museu do Tijolo.

Na metáfora do tijolo, que vem da mistura da terra, água, fogo e ar, Claudir Fachinetto juntou suas próprias substâncias na ideia do Museu. Sendo herdeiro dos saberes e fazeres tradicionais da família, dedicada à produção de telhas e tijolos, e tendo também participado dos processos de implantação do Museu do Pão, na vizinha cidade de Ilópolis, e de um roteiro de preservação de moinhos coloniais da região, Fachinetto entendeu legar para a sua cidade algo tão perene quanto os tijolos que fabrica: a cultura.

Foi uma surpresa entrar na obra do Museu do Tijolo, em fase adiantada, e ver a ousadia estética e construtiva de um conjunto de colunas de tijolos assentados de forma assimétrica, aparentemente desconexos, mas que na visão geral formam torres cilíndricas, altas e delgadas. Pilares que insinuam o sonho, a magia e a (re)invenção do tijolo — sendo ele o material construtivo que melhor demarcou a passagem da humanidade à vida sedentária: a casa, a cidade, o templo.

O tijolo é a realidade concreta das paredes; é a imaginação da filha pequena que decifra e simboliza as marcas, números e desenhos feitos por unhas de antigos oleiros nos tijolos da casa. Tais diálogos, entre o concreto e a ilusão, o artesanal e o moderno, brotam do conceito arquitetônico do Museu do Tijolo, de Marcelo Ferraz (Brasil Arquitetura). Não será difícil, assim, notar no museu que nasce em Arvorezinha, tributos e reverências ao concreto armado do Masp ou aos vãos e vazios do Sesc Pompéia (SP), da eterna Lina Bo Bardi — de quem Ferraz foi aprendiz e discípulo.

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