"Traficante sabe que crack é ruim, mas é o que dá dinheiro", diz ex-integrante de facção em Caxias - Pioneiro

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Epidemia esquecida 2/211/10/2019 | 06h30Atualizada em 11/10/2019 | 06h30

"Traficante sabe que crack é ruim, mas é o que dá dinheiro", diz ex-integrante de facção em Caxias

Para homem que se reconhecia como soldado do tráfico, saída passa pela espiritualidade

"Traficante sabe que crack é ruim, mas é o que dá dinheiro", diz ex-integrante de facção em Caxias Antonio Valiente/Agencia RBS
Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Mais de 30 assaltos, alguns com vítimas violentamente agredidas, e outros crimes ainda mais graves cometidos a mando de uma facção em Caxias do Sul. O dono desse histórico é um homem que pede o anonimato e luta há meses contra o vício em crack

O caso mostra as contradições do mundo das drogas. A relação desenfreada com o crack e os roubos facilitaram a aproximação dele com um grupo criminoso responsável por diversos assassinatos de traficantes rivais. Preso, foi cooptado para a facção numa cadeia e precisou se adaptar às exigências como soldado do crime. Se quisesse continuar como "irmão", deveria evitar o abuso das mesmas pedras que a facção vende aos montes. 

— Lá na cadeia, eu era vagabundo porque drogado não tem moral pra nada. Você ganha droga, mas a facção não quer um cara tão drogado porque a coisa não funciona. Tu vai te corrompendo aos poucos. Traficante sabe que crack é ruim, mas é o que dá dinheiro e continua vendendo mesmo com filho em casa. Maconha é muito volume, cocaína é para rico — revela.

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A redenção começou após a saída para o regime semiaberto. Cansado da rotina perigosa e pesada do submundo, decidiu procurar ajuda para tratamento. Recebeu um recado dos líderes: estaria autorizado a ficar afastado da facção se ficasse em tratamento e ligado a alguma religião. Caso continuasse no "corre", gíria para quem comete crimes, a sentença seria a morte.

O homem conviveu desde criança com o tráfico. Na frente de casa, observava o entra e sai de dependentes químicos de um ponto de venda. Pedia ao pai o que era aquele cheiro de plástico queimado e achava normal quando alguém era assassinado no bairro. Com 13 anos, experimentou cocaína. Aos 14 anos, se deu conta que o crack trazia o cheiro da infância. Ele diz que não foi um vício meteórico, mas a droga lhe direcionou para uma maldade maior. Uma rotina vivida às margens de tudo.

— Roubei farmácia, carro, mercado, pedestre. Roubei da minha mãe, do meu pai. Quando meus pais morreram, piorei.

A primeira prisão foi por causa de um assalto que deixou uma vítima com graves ferimentos. Da cadeia, ele buscou tratamento numa comunidade terapêutica. Ficou nove meses e saiu mais "louco". Passou a vender para um traficante, ficou a serviço da facção por uns três anos, foi investigado por assassinatos e numa noite fria se deu conta que era apenas um miserável sem futuro.

— Tentei entrar em casa, mas não consegui. Minha irmã tinha trancado a porta e dormi no lado de fora, debaixo da escada. Pensei: aí bandidão, tu é o cara e tá assim desse jeito? Não dava mais. O dependente arrebenta a família, a sociedade, mas nem sempre é mau.

O homem garante que a decisão de sair do inferno é do usuário, mas sem aceitação do próximo não tem como ir longe. 

—  Recebei um convite para sair das drogas e aceitei. Não me pediram o que eu fazia, só me aceitaram. Estou liberto. Não vou pagar de "crentão", mas a minha forma para estabilizar foi a partir do espiritual — conta.

Para ele, a cidade prefere esconder o problema das drogas e vive-se um estágio de selvageria horrível com mulheres grávidas e adolescentes sendo mortos a troco de moedas.

— É que muita gente ganha dinheiro com isso, né?. Tu rouba um celular para trocar pela pedra e alguém vai comprar esse celular bem baratinho. Se estou ganhando grana para que vou consertar? 

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