Refúgio na bola: conheça o time de futebol dos imigrantes haitianos em Caxias do Sul - Pioneiro

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Esporte18/10/2019 | 13h00Atualizada em 18/10/2019 | 14h56

Refúgio na bola: conheça o time de futebol dos imigrantes haitianos em Caxias do Sul

Com técnico e dois jogadores "estrangeiros" (brasileiros), equipe estreou na fase de ascenso do Campeonato Municipal no último sábado

Refúgio na bola: conheça o time de futebol dos imigrantes haitianos em Caxias do Sul Porthus Junior/Agencia RBS
Time estreou no último final de semana na fase de ascenso do Campeonato Municipal. Derrota de 5 a 0 frustrou, mas não desanimou Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Em agosto de 2004, milhares de haitianos tomaram as ruas da sua capital, Porto Príncipe, para ver passar os jogadores da seleção brasileira de futebol, que à época reunia ídolos como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. O cortejo do aeroporto até o Estádio Sylvio Cator antecedia a realização do “Jogo da Paz”, amistoso contra a seleção do país que naquela época atravessava uma violenta guerra civil. Adolescente à época, o haitiano Edva Dessalines recorda, orgulhoso, ter assistido aos seus ídolos sem precisar se espremer com o povo nas ruas, mas sim com todo conforto, à beira do gramado. 

– Eu jogava no time sub-17 do Violette (clube dono do estádio) e me deixaram ficar no campo. Perdemos de 6 a 0, mas foi uma experiência incrível poder ver bem de perto alguns dos melhores jogadores do mundo, principalmente Ronaldo, o fenômeno – conta o haitiano, hoje com 30 anos. 

Edva, que ostenta o mesmo sobrenome do ex-escravo que liderou a independência haitiana da França (1804), Jean Jacques Dessalines, estima que 80% da população do seu país torce para a seleção verde e amarela. Essa, diz, foi uma das razões que fizeram a Associação dos Imigrantes Haitianos de Caxias do Sul organizar sua primeira equipe de futebol, em meados de agosto. A estreia foi com empate em 1 a 1 contra o time dos compatriotas radicados em Bento Gonçalves. No último sábado, sob sol forte e um calor de 32ºC no Estádio Municipal, a equipe debutou na fase de ascenso do Campeonato Municipal, espécie de segunda divisão do futebol caxiense.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 12/10/2019. Associação dos Imigrantes Haitianos em Caxias do Sul montou uma equipe para disputar a segunda divisão do Campeonato Municipal de Futebol de Caxias do Sul. Apenas o técnico, Renan Souza, e dois jogadores são brasileiros. A estreia foi neste domingo, no Estádio Municipal, contra o time da comunidade Nossa Senhora das Dores, da 6ª Légua. (Porthus Junior/Agência RBS)
Bandeira haitiana exposta no vestiário. Mais tarde ela adornaria o banco de reservasFoto: Porthus Junior / Agencia RBS

Formado em sua maioria por remanescentes das primeiras levas da imigração em massa no começo da década, o time conta com trabalhadores de metalúrgicas e autônomos como o próprio Dessalines, que conserta máquinas e utensílios domésticos. Com idade média de 35 anos, os jogadores se destacam pelo estilo: bandanas, tranças nos cabelos, chuteiras coloridas. No vestiário, que puderam ocupar uma hora antes do jogo, penduraram na janela a bandeira azul e vermelha do seu país (na hora do jogo, a mesma bandeira ficou pendurada no banco de reservas). Sem tradição no futebol (a seleção ocupa a 86ª posição no ranking da Fifa), os haitianos realizam-se por poder participar, mesmo que de forma amadora, do calendário do futebol pentacampeão do mundo:

– O futebol é uma paixão mundial e o Brasil é o seu símbolo maior, com uma história muito grande. Para nós, haitianos, é muito especial ter um time para jogar no Brasil – destaca Djimy Precilien, 30, em bom português.  

O enfrentamento contra o time da comunidade Nossa Senhora das Dores não foi o que esperavam os jogadores e a torcida, que se fez presente nas arquibancadas e cobrou seriedade, o que ficava claro mesmo para quem não entendia o idioma. Como acontece no futebol, às vezes um começo promissor pode ir por água abaixo quando se leva o primeiro gol. Foi o que aconteceu. Os dois primeiros gols sofridos foram de bola parada: um de pênalti, outro de falta. Desnorteado com a desvantagem e ainda sofrendo com a falta de entrosamento, o time dos haitianos pouco pôde fazer para evitar a goleada por 5 a 0, placar final. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 12/10/2019. Associação dos Imigrantes Haitianos em Caxias do Sul montou uma equipe para disputar a segunda divisão do Campeonato Municipal de Futebol de Caxias do Sul. Apenas o técnico, Renan Souza, e dois jogadores são brasileiros. A estreia foi neste domingo, no Estádio Municipal, contra o time da comunidade Nossa Senhora das Dores, da 6ª Légua. (Porthus Junior/Agência RBS)Indexador: Porthus Junior
Equipe conta com dois reforços brasileiros, o goleiro e o meia, camisa 10Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

– Ainda não podemos dizer que temos um time. Estamos procurando mais jogadores, encontrando a melhor posição para cada um, precisamos treinar mais. É um projeto em fase inicial – ponderou Edva Dessalines. 

Acreditando em melhor sorte, a representação haitiana volta a campo neste sábado, contra o Conquista. A participação na primeira fase se encerra no dia 26 (sábado), contra o Real Rizzo, do bairro Desvio Rizzo. Apenas duas vitórias garantem o time da próxima fase do certame. 

Técnico, goleiro e camisa 10 “estrangeiros”

Voluntário cadastrado na Coordenadoria de Promoção de Igualdade Étnico-Racial da prefeitura de Caxias do Sul, o garçom Renan Carlos de Souza, 25, atendeu ao convite para ser treinador da equipe dos haitianos. Com o esquema desenhado a caneta na prancheta, armou o time num convencional 4-4-2, formação pragmática que deu ao Brasil o tetracampeonato mundial em 1994.

Para poder se comunicar com os atletas menos familiarizados com a língua portuguesa, conta com a ajuda dos que vivem no país há mais tempo. Quando precisa, chama o jogador pelo número, confiando que o seu comandado irá atendê-lo. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 12/10/2019. Associação dos Imigrantes Haitianos em Caxias do Sul montou uma equipe para disputar a segunda divisão do Campeonato Municipal de Futebol de Caxias do Sul. Apenas o técnico, Renan Souza, e dois jogadores são brasileiros. A estreia foi neste domingo, no Estádio Municipal, contra o time da comunidade Nossa Senhora das Dores, da 6ª Légua. (Porthus Junior/Agência RBS)
Renan Carlos de Souza, técnico brasileiro: ajuda dos mais fluentes em português para se comunicar com o timeFoto: Porthus Junior / Agencia RBS

– Às vezes eles fazem alguma brincadeira e começam todos a rir, ou então começam uma discussão, e eu fico “boiando”, sem entender nada. O mais importante para eles é entrar em campo e representar o seu país. São apaixonados por futebol. Meu papel é tentar organizar um pouco o time e ajudá-los a entender as características do futebol jogado no Brasil, em especial num campeonato de interior – comenta Renan. 

Além do técnico, a equipe conta com outros dois “estrangeiros”. No caso, dois brasileiros: o goleiro Adroaldo Almeida, 40, pintor (convidado pelo colega Djimy Precilien), e o meia Vitor Mateus Signorelli, 23, estudante de Ciências da Computação atualmente com a matrícula trancada, por se recuperar de uma cirurgia. O mais jovem conta que a entrada no time se deu após ser visto treinando sozinho em um campo no bairro De Lazzer, cedido para os haitianos treinarem:

– Eu estava batendo bola sozinho, como faço às vezes, quando eles chegaram no campo para treinar. Acabaram me convidando para participar do treino, e quando vi estava no time. Não é fácil acompanhá-los, pois jogam com muita força e velocidade, correndo do primeiro ao último minuto. Mas sou muito grato por estar tendo essa experiência. 

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