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Opinião12/09/2019 | 07h00Atualizada em 12/09/2019 | 08h26

André Costantin: as janelas do Moinho

No lento e ousado renascer das ruínas, o Moinho Covolan talvez viva a plenitude de sua expressão e espírito

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Uma vez tombou um caminhão na curva do morro da Julieta, entre Farroupilha e Caxias, jogando na pista retalhos de um tipo de vidro muito espesso. Junto aos cacos, espalhou-se também a notícia do sinistro, e logo apareceu um sujeito interessado naqueles restos. O rapaz carregou o que foi possível, sob os olhares desinteressados dos passantes.

Tempos depois, algo novo e inusitado começou a surgir nos vãos das paredes abandonadas do monumental Moinho Covolan – prédio histórico remanescente no centro de Farroupilha. Eram os mosaicos de vidro, ferro e cimento, das janelas do Moinho: numa abertura, surgia um sol de raios caóticos; noutras, formas geométricas, ou labirintos sinuosos, seres translúcidos ganhando formas e significados diversos no imaginário de cada observador.

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O artesão e sonhador das janelas do Moinho, com fome de artista, era Gustavo Covolan, aquele cara que juntava os cacos de vidro na ERS-122. Vinte e sete anos se passaram desde que ele, sendo um dos herdeiros do lugar, começou a ocupar as ruínas do Moinho, sem muitos porquês ou razões – apenas a ideia, algo quixotesca, de preservar aquele sítio urbano, que além de moinho servira também, nos primórdios do desenvolvimento regional, de gerador de luz para a cidade de Farroupilha.

Entre mosaicos, relevos místicos nas paredes, grafites, madeiras e metais resgatados, adaptados, ressignificados, o clássico moinho de alvenaria foi remixando as luzes da memória e do presente. Quando foi preciso refazer uma parte do telhado, o artista dos vidros maquinou uma cobertura acústica com cinco mil garrafas pets amalgamadas em uma liga de papel machê com pó de extintor, resistente ao fogo.

No subsolo surgiu um palco vibrante, batizado de Muinho Club, lugar de festas e eventos – estratégia que ajudou a manter o prédio em pé ao longo do tempo. O Moinho Covolan tornou-se, a meu ver, um raro caso de ocupação e resistência cultural ao sul do Brasil, à margem de qualquer ação ou proteção do poder público; um espaço arquitetônico e simbólico de diálogo entre o antigo e o contemporâneo. As paredes do Moinho hoje abrigam um pequeno museu e ambientes de múltiplas atividades culturais. Há um café aberto ao público, com muito gosto e história do lugar.

No lento e ousado renascer das ruínas, o Moinho Covolan talvez viva a plenitude de sua expressão e espírito. Mas também passa por sua maior ameaça de destruição. Tudo está em jogo. Poderá a cidade enxergar um novo horizonte pelas janelas do seu antigo – e moderno – Moinho?

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