Marcos Kirst: leve seu cavalo até a água - Pioneiro

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Opinião10/06/2019 | 07h00Atualizada em 10/06/2019 | 07h00

Marcos Kirst: leve seu cavalo até a água

Afinal, cantar é uma atividade que louva o sopro vital, e George cantou até o fim

George Harrison, conhecido como “o Beatle quieto”, entrou em estúdio para gravar uma nova canção de sua autoria, pela última vez, no dia 1º de outubro de 2001, oito semanas apenas antes de sua morte por câncer, ocorrida em 29 de novembro, aos 58 anos de idade. Mesmo debilitado devido à luta que travava já há anos contra a doença, ainda teve fôlego para produzir, ao longo de 2001, aquele que seria seu derradeiro álbum, “Brainwashed”, lançado postumamente no ano seguinte. Criativo até o final, não se furtou em também gravar os vocais de sua última composição (não teve forças para executar os riffs de guitarra que pontuaram sua genialidade ao longo da carreira solo e nos Beatles) naquele seu último outubro de vida, mostrando um vigor incompatível com quem se via rondado pela presença da morte. Afinal, cantar é uma atividade que louva o sopro vital, e George cantou até o fim.

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Mas a questão aqui, para efeitos desta croniqueta de segunda, não é a vida e a morte do Beatle, e, sim, o teor do tema contido naquela sua obra final, explicitado no refrão da canção que batizou como “Horse to the Water”. O refrão diz assim, em livre tradução por conta do precário inglês do precário cronista: “Você pode levar um cavalo até a água, mas não pode fazê-lo beber” (“You can take a horse to the water, but you can´t make him drink”). É uma boa metáfora, e dá no que pensar. O mantra não foi criado por ele, trata-se de adágio popular amplamente conhecido, mas reveste-se de significado infinito quando visto sob a perspectiva e inserido no contexto: afinal, rondava os pensamentos de alguém que sabia estar vivendo seus últimos dias na Terra. Escutando a canção e atentando ao timbre da voz de Harrison, é impossível evitar emocionar-se com a convicção com que ele interpreta a frase, intensa na missão de nos fazer refletir sobre até que ponto podemos auxiliar os outros em suas jornadas pessoais, e a partir de que ponto nada mais podemos fazer, cabendo a eles próprios a responsabilidade por seguir seus caminhos, definir suas prioridades, tomar suas decisões.

Não há nada que possamos fazer se o cavalo der uma de mula e recusar-se teimosamente a beber a água que, sabemos, lhe será vital e reconstituinte. Não podemos beber por ele. Podemos fazer toda a propaganda das maravilhas curativas da água e tirarmos do caminho as pedras que lhe impedem o acesso à fonte. Porém, em chegando lá, cabe ao cavalo bebê-la. Afinal de contas, cada qual tem sua própria cavalgada por essas pradarias mundanas, né, madama? E cabe a cada um administrar a sua sede. Saúde!

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