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Opinião 12/06/2019 | 07h00Atualizada em 12/06/2019 | 07h00

Ciro Fabres: trajetórias

Afável, não  levantava a  voz. Não  levantar a voz é de uma raridade surpreendente

Que rastros pretendemos imprimir no mundo, pelo menos a nossa volta? Que contribuições vamos deixar? Se é que pretendemos. Já pensamos nisso? Esses rastros ficam como pegadas e lembrança de nossa passagem por aqui. São indeléveis. Talvez as marcas se percam aos poucos, com o passar das gerações, mas elas têm uma bela vida útil. Outras permanecerão, quando há delas uma evidência visível, concreta, com assinatura de alguém. Estamos preocupados com isso? Deveríamos estar. Há opções e escolhas. Sem fazer juízo de preferência e valor, pois cada um sabe onde lhe aperta o calo, há os que contam os dias para se aposentar e sair de cena, há os que seguem atuantes e marcantes até o fim dos dias, distribuindo gestos e ações.

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Por justiça, cabe valorizar e evidenciar esse caminho de entregas. A passagem de Seu Nelson Sbabo, que se despediu semana passada, reforça características associadas a sua personalidade e trajetória que estão, digamos assim, em desuso. E esse "desuso" explica bastante sobre nossas dificuldades. Por ocasião das homenagens de despedida, está sendo possível evidenciar essas características, e não percamos a oportunidade que nos ofereceu a vida luminosa de Seu Sbabo.

Ele era adepto da mobilização comunitária como método e ferramenta. Mobilização comunitária é algo em desuso. Elas até existem, ainda, mas está cada vez mais difícil mobilizar. Seu Sbabo mobilizou uma região pela Rota. Tinha iniciativa, corria atrás de melhorias para as comunidades. Outra prática também em desuso. Não tinha tempo ruim. Seu Sbabo liderava movimentos, removia obstáculos do caminho, sem descanso. Há demandas que demoram uma eternidade, ou nunca saem do papel, por falta de quem as puxe. Um viaduto para a Curva da Morte, por exemplo. Quem lidera? Nos faltam lideranças com esse perfil.

Seu Sbabo se manteve ativo até o fim. Nunca tirou o time de campo. Três anos atrás, aos 80, presidia a CIC. Queria deixar sua contribuição até quando fosse possível. Escolheu assim, uma questão de postura diante da vida. Postura de sair para o jogo também está em falta, em desuso.

Dos depoimentos que ouvi ou li, recolho outras características, cada vez menos usuais: afável, não levantava a voz. Não levantar a voz é de uma raridade surpreendente. No encaminhamento de demandas, dizem seus interlocutores, sempre foi respeitoso no trato. Assim é mais fácil de obter o que se busca, não é mesmo! Um tanto óbvio, mas pouco praticado.

Assim foi Seu Sbabo. Reuniu em vida uma série de características que têm se tornado escassas, em "desuso", que devem nos inspirar. Resta agradecer e refletir sobre nossas trajetórias. O que temos feito delas?

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