Ciro Fabres: a Caxias que se esconde - Pioneiro

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Opinião19/06/2019 | 07h00Atualizada em 19/06/2019 | 07h00

Ciro Fabres: a Caxias que se esconde

A vida de uma cidade não é só mobilidade. Há muito mais

Uma notícia despretensiosa que pipocou na segunda-feira, quase despercebida, oferece um diagnóstico e ajuda a decifrar Caxias do Sul. Fez-se um teste nos últimos dias. Testou-se uma possibilidade de cidade, o que é bom, mas fez-se a escolha, outra vez, pelo distanciamento, pela pressa, em detrimento da aproximação, do encontro. A prefeitura testou repor o estacionamento de veículos à tarde na Sinimbu aos finais de semana, mas recuou: não vai liberar, porque traz prejuízo à mobilidade. Claro que traz. Fica uma via de tráfego a menos. Mas provavelmente a medida, se levada adiante, não trouxesse prejuízos para a cidade, pelo contrário. Porque, ora vejam, a vida de uma cidade não é só mobilidade. Há muito mais.

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Essa tem sido a escolha de Caxias, anos a fio: pela pressa para chegar do ponto A ao ponto B e, vê-se agora, inclusive aos finais de semana. Por isso, bicicletas e pedestres vivem sob risco. Por isso, o desfile da Festa da Uva tem de sair do Centro. Uma pena, pois há outras possibilidades de ser cidade, mais ricas, mais encantadoras, mas Caxias nega-se veementemente a dar-se o direito.

Esta bela Caxias tem uma inclinação irresistível por esconder-se ou distanciar-se de seus moradores e visitantes. Prefere que passem por ela, rapidamente, sem parar. É o significado inapelável de escolhas como essa, de não permitir estacionar aos finais de semanas à tarde na Sinimbu, aproximar-se do Centro, do comércio, de atrações outras que não são estimuladas, das pessoas. Caxias permitiu esconder a Casa Rosa, na Alfredo Chaves, que hoje recebe uma ração precária de raios de sol por entre duas enormes torres envidraçadas. Afastaram-se os desfiles da Festa da Uva do Centro. Voltaram, mas em doses racionadas. A Avenida Júlio, sem atrativos além do comércio, é só para passar por ela. Rapidamente. Na Praça Dante, a cidade não quer melhorias. “Não é hora”, dizem. A Praça da Bandeira está lá, atirada, abandonada há décadas, para que não convide as pessoas a aproveitá-la. Pelo contrário, pessoas são inoportunas, devem ser afastadas. O Parque Cinquentenário e o dos Macaquinhos deveriam abrir-se com segurança às pessoas também à noite. É outra visão estratégica de cidade.

A visão que temos da cidade, porém, é utilitária, para satisfazer nossas necessidades, solucionar problemas imediatos. Não cultivamos as outras possibilidades, inúmeras, ricas, não usufruímos da cidade, seus espaços, os encontros que possibilita, seus detalhes. A cidade é muito mais do que ruas por onde avançamos rápido. Mas nos negamos a aproveitá-la.

Esta Caxias tão bela faz 129 anos amanhã. Tímida e escondida, à espera de ser descoberta e abrir-se às pessoas.

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