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Opinião04/06/2019 | 07h00Atualizada em 04/06/2019 | 07h00

Adriana Antunes: as abelhas

Quanto mais distantes ficamos da natureza, menos damos importância a ela

Há quanto tempo você não vê um vaga-lume, um gafanhoto, não ouve grilos? Lembra como na infância isso era comum? Aos 13 anos ganhei de meu avô materno uma caixa de abelhas da espécie mirim. Umas abelhas minúsculas que não têm ferrão. Cresci cuidando daquelas pequenas companheiras. Fiz troca de colmeia, cuidei dos enxames que se formavam em tempo de migração e de quebra ajudava afastando os predadores naturais, como formigas e pássaros. Depois migrei eu, para as abelhas tradicionais, aprendi a reconhecer a rainha, tirar mel da caixa e restabelecer o equilíbrio para que elas pudessem voltar a ter um lugar seguro para viver e realizar seu trabalho de polinização. E nunca fui picada por uma delas. Sem dúvida aprender o manejo é fundamental, mas principalmente respeitá-las. Uma educação mais perto da natureza, com mais contato com o universo da diversidade de seres que habitam nosso planeta foi o maior legado que meus avós me deixaram. Quanto mais conhecemos e reconhecemos a importância do outro, seja ele humano ou inseto, mais conscientes nos tornamos. Ouso dizer que menos materialistas também. A vida passa a ter mais valor e por aí nos damos conta de que o dinheiro não compra tudo.

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Numa notícia que circulou discretamente pela imprensa há umas duas semanas, dizia que análises laboratoriais identificaram agrotóxicos em cerca de 80% dos enxames mortos no Rio Grande do Sul. Albert Einstein nos alertava de que se as abelhas desaparecessem da face da terra, nós, seres humanos, teríamos poucos anos de vida pela frente. Mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas entre dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, em quatro estados brasileiros, incluindo o nosso. 400 milhões só aqui no Rio Grande do Sul, sete milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso do Sul. Os dados pertencem a um levantamento feito pela Agência Pública e Repórter Brasil com dados das Associações de Apicultores, Secretarias da Agricultura e pesquisas universitárias. O agrotóxico que mata as abelhas é à base de neonicotinoides e fipronil, produtos que são proibidos na Europa há mais de dez anos. As abelhas são responsáveis por 85% da polinização das frutas, legumes e grãos.

Tenho muito medo que filhos e netos, meus ou seus, não saibam reconhecer os pássaros, as abelhas, os sapos, não saibam o que seja um vaga-lume, o canto de um grilo numa noite escura ou a fúria de um gafanhoto com fome. Quanto mais distantes ficamos da natureza, menos damos importância a ela. Talvez por isso tenhamos dado tanto valor para o dinheiro, a tecnologia e as mídias sociais, pena que elas jamais matarão nossa fome.

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