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Opinião02/05/2019 | 07h00Atualizada em 02/05/2019 | 07h00

André Costantin: ismos

Sempre que uma palavra, inocente que pareça, for terminando em ismo(s), desconfie

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Este texto quer ser autoajuda, aconselhamento, alguma elevação espiritual. Então, leitor, o conselho que dou é, se possível, fuja dos ismos. Evitando o encontro com este precioso sufixo grego, a vida talvez seja viável nestes tempos de vis paroxismos.

Sempre que uma palavra, inocente que pareça, for terminando em ismo(s), desconfie. Ideologias, distúrbios, religiões, tabus – são apenas alguns campos minados por esse fenômeno linguístico do cotidiano.

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O bruxismo me levou a um longo e caro tratamento dentário, entre ferros, pinos e borrachas tensionadas por molares e caninos. Suspeito que o meu ranger noturno dos dentes tenha a ver com o vale de lágrimas que inundou o meu potreiro de idealismos. Yes, pertenço à geração dos iludidos que, cuspidos na extrema-unção da ditadura, cresceram por aí chutando bolas de futebol pela rua, crentes que o Brasil teria jeito.

Tinha a disciplina de Moral e Cívica; também havia OSPB (Organização Social e Política do Brasil) – nas quais era impossível rodar. Elas nos transmitiam um vago patriotismo. A observação da realidade ensinava melhor. Do autoritarismo que nos legou talvez a pior educação entre todas as gerações pós-classicismo, festejamos enfim a chegada da democracia, não sem antagonismos, collors & afins.

Duas, três décadas se passaram. Parecia que a gente tinha nexo, para além das ideias esquemáticas do socialismo ou do antiamericanismo. Os milicos seguiam fazendo suas corridas a pé pela Avenida Rio Branco, sem mais meter a colher nas nossas vidas. Mas a maionese desanda em ciclos neste país imaginário da cocanha. Ilusão em commodities, eufemismo.

Eis que agora vivemos nas trincheiras enlameadas da guerra cultural, cavadas nesta insana Bolsotrip. Morte ao tal marxismo cultural! – brada o capitão oco, com seus toscos maneirismos. Pobre Marx, nunca ninguém dessa trupe leu Marx. Nem eu li – exceto aquelas pílulas requentadas da luta de classes, que logo enchiam o nosso saco. Mas, notem: a expressão “lulismo” apareceu bem depois que Lula saiu de cena, ao passo que o chefe palaciano de agora estreou com o termo “bolsonarismo” consolidado. Ou seja, já deu errado.

E o que pensar da subpátria do gauchismo? Pois, não cansados do nosso narcisismo, estamos com um novo lema de governo: “Novas Façanhas - RS” – amplificado do excerto hiperegóico do hino rio-grandense. “Sirvam nossas façanhas de modelo” etc. Coisa bem adequada a um Estado quebrado. Rsrs. Não tem, não adianta. Nestes trópicos de ismos e abismos, impossível fugir.

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