André Costantin: acervo humano - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Opinião16/05/2019 | 07h00Atualizada em 16/05/2019 | 07h00

André Costantin: acervo humano

Resulta que, de tais observações inúteis, eu vou desconstruindo o aparato humano diante de mim

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Observo as mãos no teclado do computador: os dedos desparelhos, suas articulações limitadas, a pele gasta do tempo e das obras das casas que nunca terminam. Então chega a gata obscura, sonda a minha perna com as unhas, atravessando a calça jeans.

Faço o gancho de braço e trago a gata no colo, sentindo o seu ventre macio. Diferente da outra gata anciã, que encheu uma parte da casa de solidão, depois de vinte anos de convivência, esta aqui é muito impaciente; por vezes é cruel com os humanos. Analiso uma de suas mãos – gatos e cães são como os cavalos, patas atrás, na frente as mãos.

Que mão! Uma escultura. No repouso é suave, tênue, linear, almofadas por baixo. Em ação, quando armada, é uma sentença dura: dobra de tamanho, as unhas convexas saltam pelos vãos dos dedos, tudo muda, num já.

Leia mais
André Costantin: terceiras margens
André Costantin: ismos

Resulta que, de tais observações inúteis, que vêm desde a infância, eu vou desconstruindo o aparato humano diante de mim. Até, talvez, chegar a um ponto irreversível de repulsa ao homo-sapiens, alguma síndrome de pânico. Nossos vultos bípedes e patéticos de excessivos 7,6 bilhões de exemplares, cabeçudos, desproporcionais. O que nos salva é o nosso código genético e mental de mútua atração da espécie, modelada no barro à imagem e semelhança de um Deus inventor.

Habitar afastado da urbe demasiado humana é um sintoma deste meu distúrbio. Não por acaso, em criança, quando a aurora dos tempos e da psiquê nos envolve, ficamos a imaginar qual animal gostaríamos de ser, se assim pudéssemos escolher.

Aos budistas, parece possível a ideia da reencarnação dentro de um animal, em outra consciência do mundo, extra-humana. Desde a morte da gata velha, me vejo seguidas vezes vagando em torno da ágata esférica que depositei sobre a terra que cobriu o corpo perfeito da pequena felina doméstica, ao pé do pinheiro velho do pátio.

Hoje de manhã, o peixe beta estava fora da sua caverna, com suas longas barbatanas, num arranjo que nem as noivas conseguem imitar, assim como o rei Salomão no seu esplendor seria incapaz de se vestir feito os lírios do campo – dos relatos bíblicos que nos condenaram ao “crescei e multiplicai-vos”.

Mas, porque me vêm estas coisas? Entro no vestiário do clube e vejo outros machos da espécie em ruidoso processo de higienização e interação vocal. Me refugio na sauna a vapor, porém lá dentro há outro semelhante, que me olha e puxa um assunto. Em silêncio, observo a minhas pernas, os pés feios. Quando saio para o chuveiro, chega outro acervo humano: a turma do futebol.

Leia também
Escola da Serra oferece aula prática de banda
Multiartista Ivan Zigg participa de encontro em Caxias
Bento Gonçalves sedia o 3º Congresso Estadual de Cultura

 
 
 
 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros