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Opinião14/05/2019 | 07h00Atualizada em 14/05/2019 | 07h00

Adriana Antunes: contos de fadas

É preciso ler para além da fantasia infantil que a releitura dos contos nos apresenta

Trabalho com contos de fadas desde 2007. São 12 anos dedicados às simbologias das histórias. Ao contrário do que se possa imaginar, contos de fadas, principalmente os originais, nunca falaram da busca da mulher por um príncipe. O viés romântico de uma jornada em busca de um amor é algo muito recente, surgiu junto da invenção do amor. Os contos narram histórias de mulheres que enfrentavam seus destinos, como se fosse um processo de iniciação e amadurecimento. Aliás, quanto mais patriarcal uma sociedade, mais as mulheres vão precisar de heróis para salvá-las. 

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O mais patriarcal de todos os contadores de história é o Walt Disney, o mitógrafo do nosso tempo, que reescreveu de tal forma os contos de fadas que praticamente obliterou suas fontes. Ele conseguiu a façanha de deslocar a transformação da heroína para a coragem do herói e a partir daí, a história feminina se reduz ao encontro amoroso. A maior esperança de sobrevivência da donzela é de que em algum momento seu príncipe irá surgir para salvá-la. Daí também poderíamos falar sobre o complexo de cinderela, que assola mulheres do nosso tempo e que Colette Dowling tão bem expôs em seu livro cujo título é o mesmo. 

Essa deturpação dos contos de fadas, recontada inúmeras vezes, trouxe em seu bojo o medo de nos tornarmos autônomas. É bom lembrar que autonomia vai muito além de uma carreira profissional, conta bancária independente, transar com quem se quer ou ter cargos de chefia. Ter autonomia é dar sentido àquilo que de fato tem importância para nós, ouvir nossos desejos e anseios e escolher com base nisso e não no que a sociedade espera que escolhamos ou sejamos. Isso é bem difícil. Mais do que nunca somos exigidas a ser educadas, boazinhas e elegantes como as princesas da Disney. 

As histórias antigas, compiladas por Charles Perrault falam da jornada de transformação da mulher. Falam da ambivalência que todo ser humano é portador. Falam da capacidade de resistência e luta com que as personagens vivem seus destinos ansiando por uma conquista externa, mas também interna. Não são mulheres passivas que esperam o príncipe chegar em um cavalo branco. Se a cinderela desejasse apenas o príncipe, por que ela foge durante três noites seguidas, sendo que ele havia se apaixonado por ela? É preciso ler para além da fantasia infantil que a releitura dos contos nos apresenta. Há muito mais de metáfora e simbologia do que essa redução miserável em que transformaram os contos de fadas. Por isso, lute como uma mulher em transformação. Quando nos transformamos e nos aceitamos estamos livres para amar os outros, porque primeiro aprendemos a amar a nós mesmas. Liberdade é o primeiro passo para a autonomia.

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