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Opinião01/04/2019 | 07h00Atualizada em 01/04/2019 | 07h00

Marcos Kirst: a civilidade do Gama

Publicas isso num dia e, no outro, o homenzinho chorará sua reputação literária

Nesses dias atuais pautados por ódios exacerbados dando o tom às postagens nas redes sociais e ao transitar na vida real, em que não se medem esforços para atacar e destruir a tudo e a todos, vale lembrar um episódio modelar ocorrido no Rio de Janeiro há mais de um século, e que foi registrado por um dos protagonistas na revista “Máscara”, produzida em Porto Alegre, em sua edição número 1, de 1918. Quem relatava o feito, em artigo naquela publicação, era o jurista, político e notável gaúcho João Carlos Machado, evocando um encontro casual que tivera alguns anos antes, no Rio (então capital federal do país), com o poeta gaúcho Marcelo Gama (1878 - 1915), ali radicado.

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O poeta ainda vivia (antes de ser arremessado fatalmente do banco de um bonde sobre um viaduto no Rio, despencando de uma altura de sete metros), quando Machado deu com ele em uma quebrada no centro da metrópole. Gama convida o conterrâneo a segui-lo até uma mesa da tradicional confeitaria “Americana”, para conversar. Ali, do interior de uma pasta repleta de papéis, o poeta pinça um “libelo” que tencionava publicar na imprensa carioca, direcionado contra determinado escritor que vinha sendo aclamado pela imprensa e pela crítica, segundo ele, de forma injusta, pois não passaria de um “incompetente arranjador de lugares comuns”, incensado pelos “basbaques”. A crítica de Gama, segundo Machado, ao ouvi-la ser lida em primeira mão pelo autor, era demolidora, “atacando a fundo os vícios literários da notabilidade incipiente”.

“Que tal?”, perguntou o Gama ao amigo, ao findar a leitura do artigo arrasador, ainda inédito. De pronto, Machado respondeu: “Homem ao mar! Publicas isso num dia e, no outro, o homenzinho chorará cento por cento da sua reputação literária”. Ao ouvir isso do parceiro, “baixou a cabeça Marcelo Gama”; silenciou e passou a travar uma luta em seu íntimo. “Aquele coração, infeliz, mas fundamentalmente bom, não sabia praticar perversidades”, ponderou o interlocutor do poeta. Então, discretamente, Gama rasgou em pequenos pedaços o papel que continha a ácida crítica tão habilmente por ele arquitetada e jogou-os ao vento. Em seguida, sorvendo um gole de seu aperitivo, murmurou, resignado: “Esse inconsciente que suba!”

Marcelo Gama conseguiu abrir mão do ato de tentar destruir, ou, ao menos, chacoalhar uma reputação. Foi estoico. Heroicamente, refreou os ímpetos agressivos que assomam de tempos em tempos ao espírito de quem é humano. O Gama engoliu em seco seu fel e imortalizou civilidade. Ah, que falta nos faz uma gama de Gamas assim, um século depois!

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