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Opinião30/04/2019 | 07h00Atualizada em 30/04/2019 | 07h00

Adriana Antunes: sobre filhos

Escrevo essa crônica com a mais perfeita impressão de que o tempo passou para mim também

Escrevo essa crônica com a mais perfeita impressão de que o tempo passou para mim também. Dar-se conta de que envelhecemos é uma coisa muito estranha. Agora entendo quando os teóricos do assunto dizem que envelhecemos de fora para dentro. Não é só o corpo que muda, o cabelo que fica branco ou o metabolismo que travou. Os assuntos também são outros. Dias atrás saímos para tomar uma cerveja (artesanal) e comer pizza (gourmet) com casais de amigos. O encontro durou pouco, no máximo três horas e foi num pub bem charmoso e principalmente, sem som alto. Conversamos animadamente entre as provas de cervejas, das frutadas às mais amargas, sobre filhos. Falamos sobre como os pequenos já nascem imersos neste mundo tecnológico, sobre os pontos positivos e negativos disso. 

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Falamos sobre escolinhas, sobre as linhas de educação que as escolas seguem, sobre alimentação orgânica, sobre o medo dos estereótipos que a mídia em geral cria, sobre relacionamento pai-filho e somente sobre mãe-filho, sobre a importância de recalcar os ímpetos perversos que surgem nas pequenas atitudes, sobre livros para crianças, formação do gosto, tanto do paladar quanto estético e sobre a importância do brincar. Envelheci. Jamais, em todas as inúmeras divagações que tive quando adolescente de como eu seria depois de adulta, imaginei-me falando sobre filhos e crianças. Sim, houve espaço para falarmos de música e de como nosso gosto musical evoluiu (porque eu amava Cascavelletes quando tinha 15 anos, mas não consigo ouvi-los mais, assim como começo a desconfiar da afinação de Fito Paes, principalmente depois do primeiro impacto que tive, ao (re)ouvir o CD, há alguns dias, de um show que fui anos atrás em Porto Alegre). Falamos de séries, da decepção que só aumenta com a TV aberta e de política, só que agora sem paixões ou idealizações, apenas constatações realistas e por vezes pessimistas de que talvez morramos sem ver as coisas mudarem. É bom dar-se conta que envelhecemos. Saí feliz do encontro. Olhar para minha trajetória até aqui e poder constatar que mudei em muitos aspectos, aceitando que aos 20 anos a forma era muito importante e que hoje me sinto ainda uma mulher bonita, mas não mais com o corpo dos 20, é libertador. Porque com o passar dos anos deveríamos amadurecer. Amadurecer é saber apreciar um bom vinho, selecionar as companhias, ser menos julgador dos outros, ter uma bagagem de leitura incrível. Claro, falo aqui dos que tem o privilégio de envelhecer bem. O Brasil tem discrepâncias sociais e econômicas imensas e muitos não têm o direito de envelhecer com dignidade. Agora, nada é mais piegas do que ter mais de 40 ou 50 e se comportar como adolescente. Deixemos para os filhos viverem essa fase.

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