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Opinião23/04/2019 | 07h00Atualizada em 23/04/2019 | 07h00

Adriana Antunes: entre panelas

Comer comida feita em série, sem identidade, tempero ou memória é um mal deste século que acha que até tempo é dinheiro

 cozinha é como uma enseada onde a vida se estica para andar mais devagar. É preciso tempo para fluir, escolher e recolher os alimentos da horta, percorrer o caminho das formigas que se alimentam do que também nós queremos comer, acender o fogo e esperar o aroma tomar conta da casa e da alma. Cozinhar é o tempo de marinar ideias, projetos, sonhos. Com a corrida do dia a dia muitos me dizem não ter tempo para cozinhar. Lamento profundamente. Comer comida feita em série, sem identidade, tempero ou memória é um mal deste século que acha que até tempo é dinheiro. Tempo não tem preço. Somos nós que imprimimos o ritmo que queremos ter na vida. Há coisas que são importantes e é preciso diferenciar das que são urgentes. Nem tudo que é urgente é importante. O tempo do cozimento, por exemplo, nos ensina a ter calma diante da vida, senão, comeremos cru. A calma estimula o momento matutino da profusão imaginativa. Temos a receita em mãos, os ingredientes, mas quando a criação começa há sempre uma incerteza. E essa imperfeição que a culinária apresenta nos remete à beleza, à impermanência e à incompletude da vida. Estamos entrando na época dos cítricos e em pleno inverno poderemos evocar os tons solares guardados nas laranjas e bergamotas. Esse é o gosto da cor, gosto de terra, gosto de uma estação inteira. A comida alimenta o corpo que habitamos. Este corpo vivo, inquieto, expandido ou com vergonhas, que abre janelas, ignora portas, fecha gavetas, anda pelas calçadas e ruas da cidade. Essa carne independente que nasce, cresce e se adapta. Depois volta à origem, ao pó.

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Mas afinal do que temos fome mesmo? Por que é ela que nos aproxima ou afasta das panelas, dos prazeres, das dores, dos outros. Nossa fome denuncia nossa paisagem interna. Entre oceanos e desertos transcendemos os estereótipos e encontramos a metáfora certa que expõe nossos medos mais profundos e nosso sentimento de desamparo. Essa é uma estética contraditória entre a natureza instintual do indivíduo e a cultura na qual estamos inseridos. Temos fome, fome de beleza, de amor, de aceitação, de acolhimento, de raiva, de inveja e nossas fomes vão desmontando nossas imagens e nos mostrando quem somos sem todos os adornos que temos.

Cozinhar é um ato muito simples e um convite para refletir sobre nós e nosso cotidiano. Em meio às bocas de fogão acesas, talheres sujos e pratos vazios constatamos que viver exige um esforço diário e que tudo é feito de amor e luta.

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