Gilmar Marcílio: "coitada, ela é solteira" - Pioneiro

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Opinião22/03/2019 | 07h00Atualizada em 22/03/2019 | 07h00

Gilmar Marcílio: "coitada, ela é solteira"

Uma aliança no dedo nunca foi garantia de felicidade

Conheço uma senhora que exemplifica à perfeição o quanto uma mulher pode ser machista. E a ela fazem coro muitas outras. Os costumes evoluem, mas há quem continua com a mentalidade colada na Idade da Pedra. Não perde uma chance de mostrar sua compaixão por quem não conseguiu alcançar, em sua opinião, o ideal máximo da existência: casar. E ter um status reservado somente a quem vive aos pares. A palavra “avulso” lhe causa arrepios. Não duvido que inclua em suas orações a súplica por uma mudança de destino a essas desvalidas. Seu severo julgamento costuma poupar os representantes do sexo masculino. Até arrisca dizer que alguns são espertos, optando pela caminhada solo. Um certo paradoxo, mas que só confirma a distorção quando o assunto é o estado civil da humanidade. O mais estranho é que vive às turras com o marido. As brigas só não ganham uma dimensão mais belicosa porque sabe que concordar significa dar um fim ao embate. Mesmo assim, considera-se uma privilegiada e não duvido que veja como um defeito de caráter o fato de alguém envelhecer sozinho. Em nenhum momento considera a possibilidade disso ser uma opção. A liberdade e o direito de ir e vir sem dar explicações a alguém pode ser uma escolha sensata e não digna de pena. Mas mesmo quando não verbaliza, lê-se em seu rosto a expressão: “Coitada, ela é solteira.” Todos os males e infortúnios certamente advirão dessa triste e miserável condição em que se encontra. No mais, é uma ótima pessoa.

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Não correrei o risco de endossar um preconceito às avessas, achando que a solteirice é a mais desejável das condições. Conheço quem é plenamente realizada com filhos e marido e quem o é tendo total autonomia sobre suas ações. Quero considerar aqui o retrocesso que significa postular uma verdade baseada apenas no senso comum. Quando não na falta de coragem de assumir que errou e gostaria de voltar atrás. A década de sessenta, emblemática para a luta e consolidação do feminismo, trouxe ganhos inestimáveis para ambos os sexos. Hoje transitamos socialmente sem tantos entraves, e a intimidade saiu do quarto para ganhar contornos mais solares. Os relacionamentos, por serem tão subjetivos, sempre apresentarão conflitos. Paciência. O que há de bom é que agora cada um tem a possibilidade de tomar decisões sem se preocupar com o que o vizinho ou o vigário pensam a respeito. O acesso ao que está além do âmbito doméstico nos permite comparar e, consequentemente, fazer avaliações. Foi-se o tempo em que um voto seria para sempre. Nossa mente é complexa demais para ancorar-se em certezas eternas. Elas não existem. O ideal romântico é um sonho tardio de meia dúzia de seres que superestimam quem não conhecem. Atenção: o mercado de oferta e procura cresceu muito ultimamente.

Sigamos contentes com o que a vida nos dá. Vale lembrar que nossas críticas podem vir mescladas de inveja. Afinal, uma aliança no dedo nunca foi garantia de felicidade.

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