André Costantin: o Lobo da Pintada - Pioneiro

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Opinião21/03/2019 | 07h00Atualizada em 21/03/2019 | 07h00

André Costantin: o Lobo da Pintada

E sempre que tinha um alguém na mira do olhar, indagava: ¿ Tu queres?¿

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

"Queres?” – perguntava o velho, meio cego e surdo, aos passantes que ousavam cruzar perto da varanda do seu barraco, em uma vereda funda da Ilha da Pintada.

Entrei dias atrás pelas ilhas de Porto Alegre, lugares fascinantes do Delta do Jacuí, embocadura do Guaíba, pelos quais passamos ao largo rumo à capital ou ao sul profundo do país sem quase nunca prestar atenção.

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O arquipélago de Porto Alegre é formado por 14 ilhas, podendo haver mais conforme a variação das águas. Nossa equipe de documentário andava naquele dia de sol forte pela Ilha da Pintada, onde se descortinam as belas visões líquidas da nossa metrópole meridional.

Perto da sede da Colônia dos Pescadores, com relevos de Iemanjá no cimento da fachada, uma jovem moradora da ilha, de raro conhecimento do seu mundo, desfiava fragmentos de histórias contadas pelos pais dos avós do arquipélago, como se antigos ventos soprassem do Mar do Norte, desde as ilhas-mães dos Açores.

“Queres?” – dramatizava timidamente a jovem, falando do Lobisomem da Pintada, lenda passada de boca em boca, sem nunca ser escrita. Daquele velho, cuja idade certamente passava dos cem anos, sabia-se que fora guerrilheiro em sanguinárias revoluções intestinas do Rio Grande; muita degola ele teria visto ou operado, daí talvez o gosto pelo sangue das gargantas talhadas.

O velho era surdo de um lado por causa de um tiro ou explosão, abalo que também devia ter prejudicado a vista do mesmo costado. Passava o resto dos seus dias e anos na porta do rancho de tábuas e mata-juntas, onde ninguém cruzava nas noites de lua cheia. E sempre que tinha um alguém na mira do olhar, indagava: “ Tu queres?”.

Jamais um passante aceitou aquela oferta. Por temor, talvez, pois todos suspeitavam que o velho teria sido – ou ainda era – o lobisomem que assombrava a Ilha nas noites e eventos mais tristes do ano. O ancião definhava, era um trapo secular. Até que um dia, ao visitá-lo, um dos filhos – o caçula –, tendo pena, respondeu à antiga pergunta do pai. “E tu, meu filho, quer?”.

- “Quero!”. E foi assim que o velho finalmente pôde morrer em paz, ao passar a sua herança – maldição ou bênção – para um sucessor que não deixasse morrer na modernidade o Lobisomem da Pintada. Isso costuma suceder às benzedeiras e a outros seres mágicos, que só podem partir depois de transmitir seus dons a um neófito.

E não seria, enfim, a herança do Lobo da Pintada, o mesmo que sucede a cada um de nós diante da esfinge e dos mistérios dos nossos mortos? Queres?

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