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Opinião14/03/2019 | 07h00Atualizada em 14/03/2019 | 07h00

André Costantin: ar do tempo

Um apóstolo do baixo clero pode passar muitas temporadas legislativas sem riscos de solução de continuidade

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

A expressão "baixo clero" vem se tornando corriqueira em nossa fantasmagoria política, em muito graças à figura de um ilustre condômino das Vivendas da Barra (pesada), na orla oeste da cidade maravilhosa.

É interessante pensar sobre este termo, já tão aceito na crônica nacional, sem melindres públicos da instituição que o gerou, no ventre de sua própria e antiga hierarquia: a Igreja Católica. Se não é verdade, é "ben trovato" que o alto clero da idade média era formado pelos clérigos de famílias ricas, indo aos bispos, arcebispos, cardeais e até ao Papa.

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O baixo clero eram os que carregavam o piano de Deus, padres comuns, os párocos das aldeias, botando a mão na massa dos rebanhos do Senhor – até hoje. Certa vez, à mesa, um amigo religioso, graduado, que chegava a ser cogitado para bispo – mas felizmente amava também a cerveja – deixou escapar: "para ir a bispo o sujeito tem que ser um santo ou um idiota".

Dos jogos de poder da Santa Madre ao teatro político do nosso realismo mágico – que volta e meia se diluem no mesmo cálice – foi um mero salto semântico. Baixo clero designa sem traumas uma categoria política que se move nos interesses provincianos e pessoais. "Vossa Excelência é do baixo clero!" – acusa um. "Obrigado pela deferência" – responderá o outro, passando à sua longa lista de serviços prestados à pátria.

Por ser pouco notado, um apóstolo do baixo clero pode passar muitas temporadas legislativas sem riscos de solução de continuidade, desde a grande Não Me Toque até Brasília. Ele gastará parte de seu tempo oferecendo homenagens a toda sorte de personalidades, inclusive a criminosos, como se revela agora no seio da "famiglia" das Vivendas da Barra.

O problema, o ponto fora da curva do sistema, é quando o ar do tempo, louco e imprevisível como uma facada, elege – primeiro simbolicamente, e, depois, de fato – uma peça, uma espécie inerte do pântano, que emite "viva!" aos torturadores do passado, como sendo o novo ícone do alto, do topo do clero. Da capela ao Vaticano, da churrasqueira engordurada da Barra da Tijuca ao leito presidencial.

E foi assim que um presidente chegou lá, tirou as havaianas, meteu os pés em cima do sofá presidencial da Granja do Torto, já no primeiro fim de semana de ócio, onde passou sábado e domingo chupando manga e tuitando bobagens no celular. Como se houvesse folga imediata nesse cargo. O chupa-manga, das que caem do nosso lábaro estrelado, maduras. E vai ser assim, até que os ventos mudem o ar do tempo.

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