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Opinião12/03/2019 | 07h00Atualizada em 12/03/2019 | 07h00

Adriana Antunes: brincar

Quando brincamos estamos sendo a vida e não apenas dentro dela

A vida é como se fosse um violão, você precisa tocar todas as cordas para que uma melodia surja. O problema é que quando crescemos, quando viramos adultos (e já faz tempo) paramos de tocar algumas das cordas, que atrofiadas só servem para deflagrar nossa rabugentice. Como gente grande é rabugenta!, ouvi isso de um pequeno, durante uma oficina de desenho. Tive de concordar. Ao nos tornarmos adultos paramos de brincar, afinal, a vida precisa ser levada a sério. Será mesmo? Sim, sim, temos de dar conta de muita coisa da qual nem imaginávamos quando éramos crianças, mas por que temos de fazer com que a vida seja mais pesada do que ela já é? Por que não podemos simplesmente ser mais leves?

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Do que você brincava quando era pequeno? Eu brincava de tanque de areia, de subir em árvores, de comida de barro, e tenho cúmplices. Além dos amigos de infância, que são amigos até hoje, havia um pé de nozes bem no meio do caminho. Era nosso ponto de encontro diário. Eu ouvia o chamado e a legenda "vem até a árvore" e lá nos encontrávamos e combinávamos como seria nosso dia. Guardo comigo as lembranças das brincadeiras daqueles dias. E guardar a lembrança do brincar é guardar a lembrança da unidade, que vamos passar a vida toda em busca. É brincando que aprendemos o que é a alegria de viver. Aprendemos a ser mais amistosos, a importância do contato social.

Quando brincamos estamos sendo a vida e não apenas dentro dela. Por que perdemos essa capacidade ao envelhecer? Talvez as exigências do trabalho, das contas, da cultura. Ah sim, talvez também porque a alegria não é medicalizada. Nenhuma indústria lucra quando estamos alegres. Ser alegre não está na moda. Parece que se estamos alegres ou somos levianos, ou não somos pessoas sérias, ou ainda que somos alienados. Afinal, o mundo está um caos. Talvez por isso mesmo deveríamos reaprender a importância de brincar e sorrir. A sociedade já está doente o suficiente, precisamos resgatar para além da infância a nossa capacidade de estar junto do outro, sem cobranças ou expectativas. Sem depositar sobre o outro a necessidade de nos fazer feliz. Precisamos ser felizes por nós mesmos, do jeito que somos. Mas para ser feliz é preciso ter coragem. É preciso se reencantar com o mundo, perceber a sua beleza e aceitar que somos pequenos, muito pequenos diante da vida, e que dar-se a importância de ser alguém maior, é ilusão.

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