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Opinião12/02/2019 | 07h00Atualizada em 12/02/2019 | 07h00

Adriana Antunes: geografia do afeto

Sempre acreditei que para conhecer um lugar é preciso andar a pé por ele

Sempre fui apaixonada por geografia, mapas, relevos, climas e espaço. Durante muito tempo levei esse meu amor para literatura e então nomeei como sendo uma espécie de geografia do afeto as descrições sobre Porto Alegre feitas por Moacyr Scliar, Paul Auster sobre Nova York, Ítalo Calvino sobre suas cidades invisíveis, Paulo Barreto, vulgo João do Rio sobre o Rio de Janeiro, ETA Hoffmann sobre Berlim, Steinbeck sobre a Califórnia e assim poderia citar Isabel Allende, Gabriel Garcia Marques, Mario Benedetti e tantos outros que, de uma forma ou de outra, transformaram o espaço num lugar performático, habitado pelos personagens, suas histórias, dores e descobertas. Aos poucos descobri que para além da geografia física e real há outra, extrafísica, metafórica, análoga e humana.  Sempre acreditei que para se conhecer um lugar é preciso andar a pé por ele, percorrer as ruas, sentir os cheiros, de que lado bate o vento, por onde entra o sol, que tipo de vegetação se cria ali, quem são os vizinhos, de que tipo são, quem é o dono da mercearia, para que lado fica a igreja, quantas e quais ruas são necessárias para chegar a tua casa. Quando aprendi a dirigir achava muito diferente andar pelo meio da rua, pois quando se esta dentro do carro a percepção do espaço é outra. Não se pode reconhecer as plantas que estão desabrochando, nem de onde veio o latido do cachorro. O foco é outro. 

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Ao longo da vida vamos ampliando nosso senso crítico e temos uma tendência de julgar tudo que vem pela frente. Achamos que já sabemos muita coisa, quando não sabemos nada.  Nos comportamos como engenheiros que vislumbram grandes cidades e assim soterramos nossas histórias, nosso passado. Refazemos as ruas por onde trafegam nossos sentimentos aproximando ou afastando as pessoas de nós. Remexemos com pesados blocos de pedras e camadas de terra, mas apesar de tocarmos em nossas partes mais profundas, aquelas que às vezes só nossos terapeutas conhecem, exitamos em mudar e exigimos que os outros se adaptem a nós.  Por isso é bom sair para andar um pouco. A cada passo que damos pela calçada temos a chance de reconhecer que tipo de paisagem íntima cultivamos. O que o espaço que habitamos fala sobre nós mesmos. Literatura não é autoajuda, mas precisamos sair diferente de quando entramos. 

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