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Opinião13/11/2018 | 07h17Atualizada em 13/11/2018 | 07h17

Adriana Antunes: a poesia, faz sentido?

Um alento diante da notícia em que o Brasil caiu para a última posição no ranking de valorização dos professos

Semana passada fui assistir ao festival de poesia do colégio são Rafael, em Flores da Cunha. Salão paroquial cheinho de estudantes, pais, mães, avós, amigos e gente de fora, como eu. Foram três horas ininterruptas de poesia nas mais diversas formas: teatro, recital, coreografia, performance e em artes visuais. Um respiro nos dias em que estamos vivendo. Uma esperança na escola pública. Um reconhecimento do trabalho magistral e sensível realizado pelos professores. Um exemplo de que escola, pais e sociedade fazem parte do mesmo elo, que gera, cria e educa a gurizada de hoje. Um alento diante da notícia em que o Brasil caiu para a última posição no ranking de valorização dos professos. Notícia triste, que foi veiculada também na semana que passou. De uma lista de 35 países, somos a nação que menos valoriza seus professores. Estamos atrás dos nossos vizinhos Argentina, Colômbia, Peru, Chile e Panamá.

Não vamos falar de culpa, mas de responsabilidades. Precisamos assumir nossa responsabilidade como sujeitos, cidadãos e seres humanos que somos. Não dá mais para esperar que A ou B faça alguma coisa, pois é fácil criticar quando não fazemos nada. A escola São Rafael é um ótimo exemplo de quem decidiu fazer. Professores envolvidos, alunos envolvidos e pais presentes e envolvidos. A escola não pode sozinha dar conta de tudo, mas quando a engrenagem funciona, vai além das disciplinas curriculares, consegue propiciar a formação do pensamento. Aproxima seus alunos da arte, da cultura, e quem diria, da poesia.

Talvez alguns pensem, mas poesia, poesia serve para quê? Poesia não ajuda a encontrar emprego, a pagar as contas. De fato, poesia não serve para nada disso. Mas por que falar sobre poesia parece menos importante? Talvez porque ela permite a construção de um sujeito crítico-reflexivo, e isso incomoda. Talvez porque seja a prova do inteligível. Pensar assusta. Talvez porque seja a percepção eloquente do incognoscível. Talvez porque ela não esteja na esfera das coisas. Talvez porque resista às investidas do econômico que consegue monetarizar e manufaturar quase tudo, assim como faz com o amor no dia das mães, dos pais, no natal. Quando comercializamos nossos sentimentos não precisamos lidar com nossas angústias. É mais fácil embrulhar nosso carinho num presente, entrega-lo e ir embora. Não precisamos lidar com as dores e desejos do outro. Não sabemos nem lidar conosco mesmo, não é? Assim, vamos aos poucos nos afastando do verdadeiro motivo de estar aqui. No reinado do umbigo, os espelhos tendem a dizer verdades.

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