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Opinião11/10/2018 | 07h00Atualizada em 11/10/2018 | 07h00

André Costantin: dos muros de vidro  

Simplesmente o mau gosto tornaram possível o recente fenômeno dos muros de vidro.

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Um pássaro agora está morto no piso de tijoletas de concreto, diante da cerca invisível da fábrica – um reduto industrial construído em singelos requintes de arquitetura burguesa na paisagem ainda rural de Monte Bérico, arrabaldes da cidade. O consumo espraiado das falsas modernidades e certos bens tecnológicos, a pobreza da percepção ambiental ou simplesmente o mau gosto tornaram possível o recente fenômeno dos muros de vidro.

De vidro foi o tubo da tevê, vidro muito fino é a tela do celular, espelho de Narciso. Também de vidro parece ser a grande redoma social que vai nos envolvendo neste ano da graça de 2018. E quem se habituou a voar em espíritos e corpos livres logo estará se debatendo nos paredões de vidro blindado do autoritarismo e da ignorância nacionais. Como aquele pássaro de Monte Bérico.

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Ele, o pássaro morto, pelo seu vetor no piso, vinha de um rasante sobre o parreiral do outro lado da estrada, na direção do açude feito jardim da fábrica. O lance no ar teria o entusiasmo da primavera que às vezes demora a chegar, mas que sempre vem. No meio do vôo havia um muro de vidro.

Paixão urbana e suburbana das classes médias de ânsias ascendentes, os muros de vidro me parecem desonestos, sínicos por natureza. Os tijolos ao menos guardam alguma autenticidade, por onde as ervas e aranhas podem trepar. Os muros de vidro dividem, interrompem, barram, mas querem continuar mostrando os dois lados, especialmente o de dentro.

O patrimônio, objeto do desejo alheio, de acesso negado ao outro, agora deve ser exposto: surgem as vitrines da vida privada, regozijo dos proprietários envidraçados em profundas camadas freudianas. Os limites do território transparente devem ser limpos semanalmente com panos e produtos químicos eficazes. E vem o pássaro insanamente livre.

Certas casas antigas, perdidas em caminhos da região que só se conhecem a pé ou de bike, guardam nos escombros as janelas com tampões de madeira, sem caixilhos de vidro. O vidro era uma raridade, luxo das capelas e sobrados dos comerciantes nas sedes dos vilarejos da imigração. Então os pássaros não morriam em paredes de vidro. Eram abatidos com tiros de espingarda, primeiro pela fome ancestral, depois por escárnio e mentalidades que persistem até hoje.

Mas o quê importam os pássaros e as janelas do tempo, os vôos imaginários da liberdade? Somos e seguiremos sendo uma espécie inviável. Volta e meia olhamos nos olhos do macaco primordial sem saber quem está atrás das grades. Dos vidros deste zoológico. 

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