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50 Anos do Golpe Militar28/03/2014 | 14h10

A Igreja estava dividida entre apoiar ou enfrentar o regime militar

Em Caxias do Sul, padres formaram duas correntes no período do golpe, que completa 50 anos

A Igreja estava dividida entre apoiar ou enfrentar o regime militar Maicon Damasceno/Agencia RBS
Padre Roque Grazziotin vivenciou os problemas provocados pelo regime Foto: Maicon Damasceno / Agencia RBS

O crescimento das lutas populares e dos movimentos de esquerda e uma possível implantação do comunismo no Brasil levou uma parte da Igreja Católica a ter posição decisiva na queda do presidente João Goulart, principalmente por sua participação nas marchas da Família com Deus e pela Liberdade. Em Caxias do Sul, a situação não foi diferente, com figuras de papel fundamental, como os padres Orestes Valeta, fundador do Círculo Operário Caxiense (COC), padre Ângelo Tronca, que atuou na intervenção do Sindicato dos Metalúrgicos ainda em1948, e padre Eugênio Giordani, primeiro sacerdote da paróquia de São Pelegrino.

INFOGRÁFICO: confira os fatos mais marcantes da época do regime militar

Conforme o padre Roque Grazziotin, 68 anos, ex-deputado estadual pelo PT e atual presidente da Fundação Universidade de Caxias do Sul (FUCS), a Igreja estava dividida.

— Tinha os mais progressistas e a geração do padre Giordani, padre Tronca e padre Valeta, bem reacionários, inclusive fizeram a Marcha da Família.

A historiadora Loraine Slomp Giron, em seu blog História Daqui (historiadaqui.blogspot.com.br), por exemplo, faz a seguinte observação: "O Golpe de 64 foi saudado como salvador do Cristianismo por parte do clero local. Entre esses, o Círculo Operário teve papel decisivo, na contrapropaganda aos sindicatos e na ação para impedir entre os operários católicos a deflagração de movimentos paredistas que se preparavam antes e após 1964".

Ao mesmo tempo, alguns padres da Diocese de Caxias posicionaram-se contra a intervenção. É o caso do padre Dalcy Fontanive, então diretor da Faculdade de Filosofia de Caxias, criada em 1959 pela Mitra Diocesana. Ele foi preso em 18 de abril de 1964. Ainda de acordo o presidente da FUCS, o monsenhor Hilário Pandolfo foi interrogado e levado para o quartel por ter feito pronunciamento contra o golpe.

— Os padres faziam pronunciamentos e trabalhavam com a gurizada estudantil — acrescenta padre Roque.

A atuação deles contava com a aprovação do bispo dom Benedito Zorzi, considerado avançadíssimo.

— O bispo dom Benedito protegia muito os padres mais avançados, batendo boca nos quartéis, não era aliado à cúpula conservadora. Protegia os (padres) que tinham uma cabeça melhor. Por isso que o povo conservador de Caxias nunca gostou do dom Benedito — acrescenta padre Roque.

Ele lembra que, quando ocorreu o golpe, o movimento da UNE (União Nacional dos Estudantes) era fortíssimo na época, e ele, engajado no combate ao golpe militar, ajudava a dar cobertura aos que buscavam refúgio.

— Eu fiz muito, quando estava em Porto Alegre, de mandar gente para o Uruguai, Argentina. A gente não pedia o nome de ninguém, era tudo clandestino. A casa que nós estávamos lá em Viamão era um entreposto. Se acolhia o pessoal que era ligado aos movimentos até que desse um jeito de continuar viagem.

Parte dos religiosos decidiu tomar posição

Padre Roque Grazziotin, natural de Antônio Prado, veio para Caxias em 1972 e passou a trabalhar na organização das comunidades – quando eclodiu o golpe, estava com 18 anos e recém havia ingressado na Faculdade de Filosofia, no seminário em Viamão.

– Como ninguém podia se manifestar, se organizar, e não tinha mais aqueles movimentos (veja ao lado), havia a Pastoral Operária, a Pastoral da Terra, para a questão da agricultura, e o Conselho Indigenista Missionário para acompanhar a questão dos índios. Em Caxias, o dom Benedito criou o Centro de Orientação Missionário (COM), onde o grande coordenador foi o padre Orestes Straglioto com o irmão Antônio Cechin (que depois, em Porto Alegre, foi preso e torturado).

– Virei a vergonha da congregação. Fui tratado como cachorro sarnento – desabafou Cechin, hoje com 86 anos, em entrevista a ZH.

A partir dos anos 1970, prossegue padre Roque, por causa das torturas, a Igreja tomou posição mais oficial. Havia grande parte da Igreja que apoiava os militares e havia esses movimentos, com uma visão mais crítica, social, que era totalmente antirregime militar, o que ajudou bispos, padres, leigos a tomarem uma posição. E foi quando aconteceram as torturas, principalmente no governo Médici, que um conjunto de bispos no país tomou posição realmente anti golpe. O motivo principal foi a prisão, no Rio de Janeiro, de membros da coordenação da JOC (sigla ao lado), incluindo a coordenação da juventude latino-americana. Foram torturados, e uma das moças, que estava grávida, perdeu o filho na prisão.

Sentimento de ampla aceitação da sociedade

O clima em Caxias do Sul logo após a tomada do poder pelos militares era de ampla aceitação entre boa parte da sociedade. O sentimento foi externado na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada no dia 5 de abril, um domingo. A finalidade, segundo publicou a edição do Pioneiro de 11 de abril, foi “agradecer aos homens encarregados de manter a ordem, a paz e a tranquilidade em nossa cidade”. De acordo com a publicação, a manifestação reuniu cerca de 30 mil pessoas.

Organizada pela Igreja Católica, a passeata partiu da frente da catedral e percorreu as ruas do Centro e dos bairros São Pelegrino e Rio Branco, até chegar à Igreja Imaculada Conceição (Capuchinhos). Ao passar pelo 3º Grupo de Artilharia Antiaérea (3º GAAAE), a sede do Exército em Caxias, gritos de “Viva!”.

Organizações católicas

Juventude Agrária Católica (JAC): formada por jovens do campo

Juventude Estudantil Católica (JEC): estudantes do ensino médio (secundaristas)

Juventude Operária Católica (JOC): atuava no meio operário

Juventude Universitária Católica (JUC): estudantes de nível superior

Juventude Independente Católica (JIC): jovens que não fossem abrangidos pelas organizações anteriores

Ação Popular (AP): era constituída por antigos membros da JUC. Em 1971, a AP aderiu à luta armada, passando a se chamar Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil.

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