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29/09/2010 | 06h40

Casal de brasileiros que sobreviveu ao tsunami conta vivência em livro

Os médicos Karina Dubeux e Isac Szwarc foram salvos por estar no lugar mais improvável na hora do desastre, debaixo d´água

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Um dia após o Natal de 2004 o mundo assistiu a uma das maiores catástrofes da história. Uma sequência de ondas gigantes arrasou a costa de países da Ásia e da África matando mais de 300 mil pessoas.

Assista um vídeo com relatos dos dois médicos sobre a experiência durante o tsunami na Tailândia.



Enquanto os tsunamis varriam cidades, um casal de brasileiros mergulhava a duas horas da costa, no Sul da Tailândia. Karina Dubeux e Isac Szwarc foram salvos por estar no lugar mais improvável, debaixo d´água.

A história dos dois médicos reumatologistas é daquelas que merece um livro. E ele agora existe. Em Salvos por um mergulho (editora Kalligraphos), Karina conta o drama vivenciado durante a viagem.

Uma sucessão de episódios fez com que o casal mudasse o roteiro inicial de viagem, o local da hospedagem e o horário do mergulho. Só por conta dessas coincidências eles sobreviveram.

O livro, diz a autora, é uma espécie de desabafo: 

— Precisei exorcizar essa catástrofe interna e externa —  ressalta.

Na última quinta-feira, Karina e Isac, que vivem em São Paulo, realizaram uma palestra na Associação Médica de Caxias do Sul (Amecs). Antes do evento, o casal recebeu o Pioneiro. Confira os principais trechos da conversa. 

Pioneiro: Vocês são mergulhadores há 17 anos. Era a primeira viagem de vocês à Tailândia?
Karina: Essa viagem era um sonho de Isac. Mergulhar é o nosso principal hobby. Então, a gente vai se revezando em sonhos. Nós viajamos, em dezembro de 2004, para mergulhar e conhecer as praias do sudeste asiático. Uma série de coincidências salvou nossas vidas porque o hotel onde ficaríamos hospedados inicialmente ficou totalmente arrasado devido ao tsunami.

Pioneiro: Por que vocês foram salvos por um mergulho?
Isac: Houve um atraso de meia hora no início do nosso mergulho. É raro as operadoras de mergulho atrasarem, mas aconteceu. Esse atraso fez com que não estivéssemos na superfície, na ilha de Maya, no momento do tsunami. Na ilha, pessoas morreram e parte do nosso hotel foi destruída. Quando o tsunami aconteceu, nós estávamos a 23 metros de profundidade.
Karina: A gente não viu o tsunami, mas sentiu algumas consequências. Ficamos no meio de redemoinhos, começamos a bater um no outro.
Isac: A nossa sorte é que, além da questão temporal houve uma proteção geográfica. Nós mergulhamos abrigados por uma pequena baía. A onda veio de fora para dentro da baía. Num tsunami, quanto mais na costa, mais as pessoas são atingidas.

Pioneiro: Quando vocês souberam da catástrofe?
Karina: Só bem depois de concluir o mergulho. Quando já estávamos indo à praia de Maya vimos dois tailandeses numa canoa gritando. Eles gritavam em tailandês, então nós ainda estávamos inocentes. Mas aí logo começaram a chegar outras pessoas e soubemos que um barco havia sido triturado contra uma pedra e a tripulação morreu.

Pioneiro: Que cenário vocês encontraram na superfície?
Karina: O mar estava turvo, cheio de lama e com muitos redemoinhos. Quando conseguimos voltar ao hotel, nadando uma parte do percurso porque o barco não conseguia ancorar, vimos a frente do hotel varrida, uma ponte de concreto partida ao meio, barcos virados. Estávamos assustados, mas não tínhamos noção do que havia acontecido porque, na ilha, só havia nosso hotel e estávamos sem comunicação.

Pioneiro: O que vocês fizeram ao chegar?
Karina: O nosso quarto, por ser aos fundos do hotel, não foi atingido. Tomamos um banho, eu coloquei um pijaminha e fui dar uma descansadinha. Pode parecer absurdo alguém conseguir dar uma relaxada de pijama depois de um tsunami, mas eu lá sabia o que estava acontecendo? (risos). Pouco depois surgiu um aviso de nova onda gigante, que nos assustou muito. Mas, felizmente, o alerta foi falso. Feridos começaram a aparecer das redondezas. Usamos nossa experiência de médicos para ajudar.

Pioneiro: Quando vocês se depararam com as imagens chocantes que nós vimos repetidas vezes pela TV?
Karina: Cerca de seis horas depois do tsunami é que nós fomos saber o que aconteceu, também pela TV. A luz voltou e começamos a acompanhar. O primeiro número que ouvi anunciarem era de cinco mil mortos. As imagens mais visualizadas eram justamente da Tailândia, e um dos locais devastados era onde nós deveríamos estar se não tivéssemos mudado de plano sei lá por qual motivo.

Pioneiro: Como conseguiram sair da ilha?
Karina:
Dois dias depois do tsunami. Passamos esses dois dias ouvindo helicópteros carregando e procurando gente. A onda contaminou a água e alimentos, que começaram a ser racionados. Fomos levados de barco até o aeroporto mais próximo. Lá vimos um cenário de guerra. Muitos militares, gente ferida, gente desesperada querendo ir embora, aviões que saíam a todo momento carregados de gente. Tivemos sorte, mais uma vez, de em três horas conseguir sair daquele horror.

Pioneiro: Quando "caiu a ficha" do que havia acontecido?
Isac:
Foi aos poucos, já no Brasil. Levamos quatro dias para ir e vir da Tailândia e permanecemos outros três lá. A cabeça estava virada. Em poucas horas fomos para o outro lado do mundo, vivemos tudo aquilo e estávamos de volta ao nosso país.
Karina: Me lembro que, no aeroporto, fomos bombardeados pela imprensa. Eu saí respondendo meio no susto. O tipo de pergunta era para uma sobrevivente, mas até então eu me considerava mais sortuda que sobrevivente. Quando minha família apareceu no aeroporto vestindo camisetas onde se lia: "Nós amamos vocês no fundo do mar, ida e volta" a ficha começou a cair, eu era uma sobrevivente sortuda.

Pioneiro: Por que, apesar da experiência traumática, vocês voltaram à Tailândia em 2008 para mergulhar na mesma região?
Karina:
Em 2004 ficou o trauma e a sensação de sonho interrompido. Então, decidimos voltar e, graças a deus, conseguimos fazer o nosso roteiro. Vimos uma Tailândia reconstruída, mas bem diferente de antes. A tragédia virou até motivo para muita gente ganhar dinheiro, com venda de fotos e pôsteres do tsunami.

Pioneiro: Como nasceu o livro?
Karina: Precisei exorcizar essa catástrofe interna e externa. É como um soldado que sai da guerra sem nenhum arranhão, mas muito machucado. É uma espécie de desabafo e uma maneira de compartilhar com as pessoas a nossa vivência. Não é uma obra de auto-ajuda, mas o objetivo também é propagar ondas do bem.

Pioneiro: Ter passado por essa experiência fez vocês viverem de um novo jeito?
Isac: Passamos a ter uma expectativa de vida mais curta. Não planejamos a vida para daqui a 20 anos. Pensamos no que vamos fazer semana que vem, mês que vem, no máximo daqui a um ano. Vivemos cada dia como se fosse o último. Procuramos ser felizes hoje, levando em conta o que são nossas prioridades, o que nos dá prazer e como podemos ajudar os outros.
Karina: Percebemos que a vida é um presente e que temos de viver intensamente. As pessoas têm de deixar de lado a mesquinhez e ser mais solidárias, colorir a vida das outras pessoas. Dar um sorriso quando cruza com alguém no caminho já é um começo.

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