O titular da 1ª Delegacia de Polícia (DP) de Canoas, Guilherme Pacífico da Silva, vai pedir a exumação de corpos de bebês mortos no Hospital Universitário da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) desde o início deste ano. A polícia quer verificar se existe alguma relação com o caso da sedação de 11 recém-nascidos pela técnica de enfermagem Vanessa Pedroso Cordeiro, 25 anos.
Num primeiro momento, serão analisados os prontuários de todas as mortes de recém-nascidos ocorridas desde o início do ano. Bebês que tenham nascido saudáveis, adoecido e morrido sem uma causa aparente terão a morte investigada.
– Ela trabalha há dois anos lá. Pode ser que não tenha nenhum caso, mas também pode haver vários. Queremos esgotar qualquer possibilidade de que tenha ocorrido algo semelhante no passado – diz o chefe de investigações da 1ª DP, Sérgio Zolin.
Além do Hospital da Ulbra, Vanessa trabalha no Hospital Regina, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos.
Na noite de sexta-feira, ao ser detida no hospital, Vanessa admitiu informalmente ser a responsável pelas doses de morfina e diazepan dadas à recém-nascidos. A medicação, sem acompanhamento médico, pode ser fatal. Conforme a diretora-geral do hospital, Eleonora Walcher, a droga, que deixava bebês com seis horas de vida fracos, desfalecidos e com parada respiratória, só não resultou em morte porque o hospital é equipado com Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Nenhum dos 11 bebês corre risco de vida.
Vanessa teria admitido o crime após ver uma seringa com vestígios de morfina apreendida pela polícia em sua pochete. Para justificar o crime, falou que enfrentava problemas psicológicos.
Mais tarde, na presença do advogado Sérgio Assumpção, Vanessa voltou atrás e negou o envolvimento com a tentativa de homicídio infantil – o que não impediu que a jovem fosse autuada em flagrante e levada para a Penitenciaria Feminina Madre Pelletier, em Porto Alegre.
– Reconheço que o delegado é sério e competente, mas ele interpretou de forma equivocada o relato de Vanessa lá na delegacia – lamenta Assumpção, que deverá pedir hoje o relaxamento da prisão de Vanessa.
Como se chegou ao nome da suspeita
Os 11 casos de uso indevido de sedativos em bebês no Hospital Universitário da Ulbra, em Canoas, ocorreram no setor de Internação Obstétrica, onde ficam mães e recém-nascidos.
A primeira ação da técnica em enfermagem Vanessa Pedroso Cordeiro, 25 anos, teria ocorrido na quinta-feira, 5 de novembro. Nos dias seguintes, quando ela estava de folga, nada de anormal foi percebido na maternidade. Na segunda-feira, 9, com Vanessa de volta ao trabalho, surgiram três novos casos, assustando a direção do hospital. Começaram a se tomar a primeiras providências para tentar descobrir as origens do problema.
Na quarta-feira, 11, mais cinco recém-nascidos, sadios, prestes a ir para casa, foram levados com urgência para a UTI neonatal devido a súbitas paradas respiratórias.
– Nesse dia, decidimos acionar os órgãos de saúde. Foi composta uma comissão especial para investigar ao extremo a situação. Foram mais de 60 profissionais, entre médicos, psicólogos, engenheiros, ambientalistas – explicou o diretor-executivo do hospital, Luciano Melo.
Havia suspeita de contaminação ou infecção hospitalar. Foram adotadas várias medidas de precaução e realizadas análises de água, do ar, todas com resultados negativos. Ao mesmo tempo, amostras de sangue e urina dos bebês seguiram para exames no Centro de Informação Toxicológica do Estado. Os resultados ficaram prontos na sexta-feira, 13.
Bebês que só se alimentavam de leite materno haviam ingerido indevidamente calmantes. Nesse mesmo dia, entre 15h30min e 16h, mais dois recém-nascidos apresentaram os mesmos sintomas. Vanessa tinha iniciado o turno de plantão às 14h.
– Os indicativos convergiam para uma ação criminosa– lembrou a diretora-geral do hospital, Heleonora Walcher.
O delegado Guilherme Pacífico e sua equipe chegaram ao local às 18h. E já havia uma suspeita sobre Vanessa. Todos os casos ocorreram nos horários de trabalho dela, que seria sempre a primeira a perceber a enfermidade das crianças. Vanessa estaria preocupada em se livrar de uma pochete e acabou detida. Apreendida pela polícia, a bolsa tinha objetos pessoais de Vanessa e uma seringa com líquido incolor semelhante à morfina.










