Terreiro de umbanda amanhece depredado no bairro Pioneiro, em Caxias - Polícia - Pioneiro

Intolerância religiosa17/11/2017 | 16h16Atualizada em 17/11/2017 | 16h17

Terreiro de umbanda amanhece depredado no bairro Pioneiro, em Caxias

Templo comandado pelo Pai Ademir de Oxum, em Caxias, foi vandalizado e teve itens furtados

Terreiro de umbanda amanhece depredado no bairro Pioneiro, em Caxias Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Pai de santo lamenta perda de artefato religioso usado por quatro décadas Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Ademir Antônio dos Santos Neves, o Pai Ademir de Oxum, 58 anos, acordou para um pesadelo na manhã desta sexta-feira (17). 

— Eu tenho o hábito de levantar de manhã e, a primeira coisa, ver os meus orixás, pedir a proteção para o dia. Quando eu saí e vi a porta aberta, já vi que tinha acontecido alguma coisa — conta o sacerdote do templo de umbanda Oxum e Ogum Reino dos Orixás, em Caxias.

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O terreiro, que fica no terreno da casa de Ademir, no bairro Pioneiro, foi arrombado durante a madrugada de quinta (16) para sexta. Do espaço, foram roubadas oferendas, como bebidas e charutos, e alguns itens rituais. Imagens religiosas, vasos e outros itens foram depredados.

Ao que tudo indica, o responsável pelo crime — ainda não há suspeitos — pulou o muro do terreno. Como somente o terreiro foi violado e a casa e a garagem de Pai Ademir permaneceram intocadas, ele está convicto de que se trata de um caso de intolerância religiosa. 

— É inacreditável, é uma coisa que não tem explicação. Deixa a gente triste, transtornado. Jogaram as imagens no chão, machucaram. Quem faz isso realmente não tem conhecimento, consciência espiritual nenhuma — lamenta.

Na condição de líder religioso, Pai Ademir realiza palestras sobre tolerância religiosa em escolas do município. Tal prática, porém, não o deixou mais preparado para o que aconteceu.

— A gente fala disso para os outros, mas nunca espera que aconteça com a gente. A primeira reação é sentar para acreditar que aquilo está acontecendo.

Pela manhã, o pai de santo registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), acompanhado do titular da Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial da prefeitura de Caxias, Gilson Cordeiro.

— A umbanda é uma religião de matriz africana, então estamos aqui para dar todo o aporte e se manifestar contra qualquer tipo de intolerância — declarou Cordeiro. 

Entre os itens furtados, o que mais machuca Ademir é a imperial, guia com contas de vidro utilizada para o jogo de búzios.

— Quando eu vi que tinham roubado tudo, com pedras de búzios pelo chão, passou um filme na cabeça. São 38 anos de vida ali, não só a minha, mas de centenas, milhares de pessoas que vieram se consultar. A mesa de búzios é o mais sagrado para um pai de santo. É uma parte de ti que falta — salienta.

Ademir relata que nunca havia passado por uma situação como essa. Ele não lembra de situações de intolerância contra crenças de matriz africana na cidade apesar de, a nível nacional, casos de depredações de imagens e símbolos sagrados da umbanda e o candomblé serem mais comuns do que de outras religiões. 

No último caso de depredação de locais religiosos registrado em Caxias, a Igreja da Ressurreição, no bairro Mariani, foi atacada por vândalos em setembro deste ano. Em 2015, imagens sacras da Igreja Católica foram alvo de ataques em cidades da Serra. 

No terreiro de Ademir, são realizadas cerimônias e rituais religiosos e diariamente pessoas se consultam com o pai de santo. Pai Ademir explica que levará cerca de 12 dias para que as atividades no local sejam retomadas.

— Há despesas, tudo depende de rituais, que o terreiro vai ter que passar. Tudo tem que ser lavado, tudo e sagrado. A gente trabalha em cima de ritos.

O pai de santo, porém, não vai parar com sua rotina, apesar do susto. Já no sábado (18), ele dará uma palestra para os alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Assis Antônio Mariani, no Jardim Eldorado. 

— Nós, de religiões de matriz africana, estamos há mais de 400 anos sofrendo o olhar da intolerância. A crença foi a resistência do negro pela fé, pelo orixá. Vamos seguir levando a conscientização — reforça.  

A ocorrência de furto foi registrada e o crime será investigado pela 2ª Delegacia de Polícia. Interessados em ajudar o Pai Ademir a recuperar os objetos sagrados podem contatá-lo pelo telefone (54) 99122-5306 ou denunciar anonimamente pelo (54) 3220-9270.

 
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