Mulheres ainda morrem por medo em Caxias do Sul - Polícia - Pioneiro

Violência doméstica25/11/2016 | 08h02Atualizada em 25/11/2016 | 16h01

Mulheres ainda morrem por medo em Caxias do Sul

Campanha que se inicia nesta sexta quer incentivar denúncias e inibir agressores

Mulheres ainda morrem por medo em Caxias do Sul Felipe Nyland/Agencia RBS
Exposição de mulher abrigadas na Casa Viva Raquel estão entre as ações da campanha que se inicia nesta sexta em Caxias Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

A falta de informação, o medo e a vergonha continuam entre as justificativas para que as mulheres evitem procurar ajuda após serem agredidas por maridos e companheiros. Mas o receio de não serem defendidas pela Justiça e pela polícia ainda é o principal obstáculo entre as vítimas e a rede de proteção. Muitas conhecem a Lei Maria da Penha, instituída há 10 anos, mas, temendo uma reação ainda pior do companheiro, evitam a denúncia. Também descrentes da eficácia das medidas protetivas, boa parte se prende ao silêncio. Das cinco vítimas de feminicídios deste ano em Caxias, nenhuma tinha medida protetiva contra o companheiro, e três delas já tinham sido agredidas ou ameaçadas antes de serem mortas, mas não procuraram a polícia. 

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O reflexo disso são os números de assassinatos que não param de crescer. Mesmo quem aposta e trabalha em programas e mecanismos de proteção e conscientização contra a violência, como integrantes da Coordenadoria da Mulher de Caxias e do Juizado da Violência Doméstica, se impressionam com a quantidade de casos na cidade. São cinco assassinatos em razão do gênero neste ano, mas alguns das outras 11 mortes de mulheres que estão em investigação pela polícia pode também ter origem na violência doméstica. É um número alto, até agora o mais expressivo nos últimos dois anos: 2015 fechou com três casos e 2014 com dois. 

Para tentar frear essa violência, diversas atividades estão programadas na campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, que começa hoje em Caxias. A ideia é jogar ainda mais luz para o tema, de acordo com a psicóloga da Coordenadoria, Cristina Valls Corsetti Mano, já que muitas ainda não entendem que o melhor é sempre procurar ajuda, no menor dos indícios:

— Pensamos que todas sabem o que fazer quando sofrem algum tipo de violência, mas estamos enganados. Muitas, incrivelmente, ainda não sabem que tem uma rede disposta a auxiliá-las.

Proteção esporádica não é garantia

A família de Marcia Ferrarez, 31 anos, assassinada há 10 dias com um tiro no olho e outro no tórax, vive um misto de indignação e tristeza. Ela foi morta quando chegava em casa, com o namorado, no bairro Esplanada. Segundo o relato do rapaz à Brigada Militar, um ex-namorado de Marcia teria atirado. Um dos oito irmãos da vítima, Helio, conta que ela estava separada havia dois anos e tinha começado um novo relacionamento há três meses. Nesse período, o ex, que tinha se mudado de Caxias, voltou a procurá-la na cidade.

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— Quando eles estavam juntos, cansei de separar brigas. Ela dizia que ele era ciumento, agressivo. Aconselhamos que ela procurasse a polícia diversas vezes, mas ela tinha receio que ele ficasse ainda mais furioso. E do que adiantaria ter uma medida protetiva? Duvido que no momento do crime tivesse um policial junto com ela para protegê-la. Parece que ninguém protege as mulheres, a Maria da Penha não inibe os homens — acredita Ferrarez. 

Julgamento e fragilidade ainda em questão

Falar sobre a violência sofrida pelas mulheres, e dar evidência para os casos de assédio e ameaça, são algumas das formas utilizadas pela rede de proteção para tentar inibir os agressores. Ações da campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher também pretendem encorajar as vítimas de violência doméstica.

— Temos que falar sobre a violência, tornar os casos visíveis. Sabemos que, durante o processo de violência, a mulher fica mais fragilizada, que é ainda mais difícil pedir ajuda. Muitas dependem do marido, financeiramente na maioria das vezes, e acreditam que aquela será a única agressão que vão sofrer. Mas aí o tempo passa e vem outra, outra... Também é importante que as pessoas que convivem com aquela mulher, com o casal, percebam que tem algo errado e denunciem. Tem quem diga que na relação de marido e mulher não se mete a colher, mas tem vezes que é preciso se intrometer para o bem — alerta a psicóloga da Coordenadoria da Mulher, Cristina Valls Corsetti Mano.

Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

O pré-conceito de que as mulheres são propriedades dos homens continua sendo realidade em algumas famílias, o que facilita e abre brechas para a violência, segundo Karina dos Santos de Paula, membro da Marcha Mundial das Mulheres. A militante do movimento feminista palestra na próxima terça sobre o Empoderamento das Mulheres Negras na Câmara de Vereadores.

— Ainda somos muito julgadas, mais do que os homens. Machismo é cultural. A rede de acolhimento existe, mas não funciona como deveria. Quem sofre violência não tem todo o amparo que precisa para se livrar do problema. Temos muito para caminhar ainda, mas falar sobre a violência é como plantar sementes para um futuro mais consciente — acredita Karina.

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