Com 138 assassinatos, Caxias do Sul tem o ano mais violento de sua história - Polícia - Pioneiro

Disparada dos homicídios24/11/2016 | 01h25Atualizada em 24/11/2016 | 13h07

Com 138 assassinatos, Caxias do Sul tem o ano mais violento de sua história

O recorde anterior pertencia a 2010, quando 137 pessoas foram mortas

Com 138 assassinatos, Caxias do Sul tem o ano mais violento de sua história Porthus Junior/Agencia RBS
Jeferson Rodrigo dos Santos da Cruz foi encontrado caído na Rua Francisco Spiandorello Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

A insegurança e o medo sentidos nas ruas estão confirmados em números: 2016 é o ano mais sangrento de Caxias do Sul. Executado a tiros no bairro Reolon na noite da última quarta-feira, Jeferson Rodrigo dos Santos da Cruz, 43, entrou para a estatística histórica como a 138ª vítima de assassinato em um ano na cidade, um recorde funesto. Em 2010, até então o mais violento, foram 137 homicídios.  

O homicídio de Cruz apresenta o perfil de vítima apontado pelas autoridades policiais como o mais comum: usuários de drogas que são mortos em razão de dívidas ou desavenças. A vítima era reconhecida por moradores da região como viciado. Porém, ele não seria envolvido em confusões, de acordo com os moradores do bairro. A hipótese de dívida é corroborada pela Polícia Civil.

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— É um crime característico de execução do tráfico — resumiu o delegado Ives Trindade, que atendeu a ocorrência.

Cruz foi atingido com diversos tiros na cabeça e peito. Foram apreendidos quatro estojos de munição na cena do crime — três de calibre .380 e um de .38. A perícia inicial ainda constatou um afundamento no crânio dele, provavelmente causado por uma pancada. Não foram encontradas testemunhas. O relato da vizinhança é que o homem foi visto caído próximo à parada de ônibus da Rua Francisco Spiandorello, e por isso o Samu foi acionado.

O avanço da criminalidade tem diversas explicações, como a falência do sistema penitenciário, a falta de efetivo da Brigada Militar — menos da metade do ideal —, o parcelamento dos salários de policiais, a proliferação do tráfico de drogas e até a crise econômica, que elevou o desemprego e a falta de oportunidades. 

Impunidade chancelada pela Justiça

Porém, é na lentidão do Poder Judiciário, admitida inclusive por magistrados e promotores, que os bandidos têm a chancela da impunidade. Afinal, muitos autores de homicídios possuem ficha extensa e deveriam estar recolhidos em presídios. Nas ruas, autorizados a responder em liberdade enquanto seus processos se arrastam, têm o caminho livre para atacar novamente e espalhar o terror. 

Como no caso de Érica Fernandes de Oliveira, morta aos 16 anos. O suspeito denunciado pelo crime é o seu ex-namorado, Márcio Castelli, 31, que só agora cumpre pena de oito anos de reclusão por tentativa de homicídio em 2009. Ele foi julgado em 16 de novembro de 2016 —  50 dias depois de a adolescente ser executada com golpes de barra de ferro em um matagal no bairro São Cristóvão. Se o processo contra Castelli não tivesse demorado sete anos para ser concluído, o réu estaria cumprindo pena numa cadeia e Érica poderia estar viva. 

O enredo é semelhante para autores de latrocínios (roubo com morte), que quase sempre atingem inocentes. Patrick dos Santos Brando, apontado como um dos quatro matadores da papiloscopista Márcia Regina Morais, ocorrido em 11 de abril, responde por tentativa de homicídio ocorrida em 1º de agosto de 2014.  

Por este crime, sua prisão preventiva foi decretada em 21 de março porque ele não comparecia às audiências e estava "em local incerto e não sabido". Brando só foi capturado depois da morte de Márcia. Em 12 de julho, após notificada sua detenção durante a investigação da morte da papiloscopista, a defesa postulou e a juíza Milene Dal Bó concedeu a liberdade provisória no processo pela tentativa de homicídio. Na decisão, a magistrada salientou que o "acusado é primário e o fato imputado ocorreu há mais de dois anos".

O réu só permanece recolhido pela denúncia de latrocínio. O processo de 2014 está em fase de oitivas de testemunhas e com audiência marcada para 15 de agosto do ano que vem.

Prefeito promete trabalho integrado

Das 138 mortes de 2016, apenas 44 investigações foram concluídas pela Polícia Civil. A exceção está na elucidação de latrocínios — cinco dos sete casos do ano estão resolvidos, com oito indiciados presos, dois autorizados a responder em liberdade e outros dois foragidos.

— Vou usar o poder de polícia da Guarda Municipal para reforçar o patrulhamento preventivo, num trabalho conjunto com a BM nas ruas. Precisamos trabalhar a inteligência para diagnosticar em quais áreas estão os maiores problemas. Trabalhando juntos, num mesmo espaço, as ações do Centro Integrado de Segurança Pública darão respostas mais efetivas — promete o prefeito eleito de Caxias, Daniel Guerra.

Anos mais violentos (por número de homicídios):
2016: 138
2010: 137
2012: 134
2011:125
2006: 120

Quem são as vítimas
Homens: 122
Mulheres: 16 

Faixa etária dos mortos
Entre 12 e 17 anos: 12
Entre 18 e 29 anos: 66
Entre 30 e 39 anos: 37
Entre 40 e 49 anos: 18
Entre 50 e 59 anos: 4
Mais de 60 anos: 1

Perfil dos mortos
= 79 tinham passagem pela polícia
= 123 foram mortos a tiros
= 8 foram executados em roubos
= 11 morreram após confronto com a polícia
= 5 mulheres foram mortas por companheiros ou ex-companheiros

Bairros conflagrados (por número de homicídios)
Vila Ipê: 11
Planalto: 8
Euzébio Beltrão de Queiróz: 7
Santa Fé: 7
Reolon: 7
Fátima: 6

 
 

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