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Outubro Rosa16/10/2020 | 15h53Atualizada em 16/10/2020 | 17h13

Em tratamento contra o câncer, jornalista de Bento Gonçalves compartilha realidade que vê na oncologia

Desde janeiro, as redes sociais de Ana Carolina Azevedo, 34, tem sido espaço para publicação de recortes da experiência como paciente

Em tratamento contra o câncer, jornalista de Bento Gonçalves compartilha realidade que vê na oncologia Porthus Junior/Agencia RBS
Mesmo na sua própria luta contra o câncer, Ana Carolina ainda acredita ter muito a observar e encontrou no relato uma forma de cura Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

"Essa não é uma boa semana em minha vida. Eu tenho problemas assim como você aí do outro lado, mas hoje cheguei na quimioterapia e a recepção surpreendente foi essa do vídeo. Apesar da música alegre, caí num choro forte e fui amparada pelo abraço de Iracema. Dançamos e chorei mais um pouco, mas essa é uma história boa e quero dividir com você!"

Assim começa um dos textos publicados por Ana Carolina Azevedo, 34, sob o título "O que vejo na oncologia". Eles integram uma despretensiosa série que ganhou forma em seu Instagram e Facebook, a partir de janeiro de 2020, acompanhando seu processo de tratamento contra o câncer de mama e axila, diagnosticado em setembro de 2019.

Moradora de Bento Gonçalves, Carol — como é conhecida pelos amigos — foi uma das personagens da série de reportagens da RBS Serra no Outubro Rosa de 2019. Naquela entrevista, ela destacou o poder de suas escolhas, especialmente alimentares, como recurso para melhorar a qualidade de vida durante a quimioterapia. O assunto realmente não poderia ser outro a partir do momento em que ela decidiu compartilhar seu quadro de saúde com o público do blog que mantém há seis anos, o Culinarismo — por meio do qual ela sempre levantou a bandeira da alimentação consciente.

Foi nas redes pessoais, porém, que Carol encontrou espaço para dividir, com amigos e familiares que a acompanham, parte dos bastidores da experiência que ela encara como sendo de profunda transformação. Até o momento foram 12 publicações. Recortes breves, porém cheios de detalhes e de sentimentos, capazes de colocar qualquer leitor leigo no assunto em contato com a realidade de quem frequenta o setor da oncologia.

A experiência de uma jornalista que, mesmo na sua própria luta contra o câncer, ainda acredita ter muito a observar nos outros.

— Por uma escolha minha, sempre fui sozinha às sessões de quimioterapia, que chegam a durar seis horas. Algo bem mais longo do que um soro, por exemplo. Como eu estava vivendo essa nova realidade, decidi exercitar a observação e conhecer, de fato, as pessoas que estavam ali, porque isso também faz parte da minha jornada — afirma Carol. 

Em sínteses elaboradas com a mesma precisão cirúrgica exigida para a remoção de um tumor, Carol conseguiu colocar, em alguns parágrafos, a complexidade de um processo cheio de sentimentos e aprendizados. 

Mesmo com o olhar poético sobre a vida, impresso a cada linha, de cada relato, ela faz questão de destacar o quanto o enfrentamento a um câncer é difícil, ao mesmo tempo em que acaba sendo a única alternativa para quem escolhe viver.

— A oncologia é uma realidade muito distante das pessoas, como se fosse um mundo paralelo. Muitos pensam, eu também pensava que seria um lugar triste, mas o sentimento que predomina é o de esperança, porque é onde a gente busca a cura — relata a paciente, que sempre enalteceu o trabalho do Instituto do Câncer do Hospital Tacchini.

A Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) é referência regional para atendimentos prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Novo entendimento que inspira

Mesmo sem a intenção de orientar, a abertura de Carol em relação ao assunto, em seus depoimentos virtuais, tornou-se inspiração para muitas pessoas, sobretudo para as que passam por situações semelhantes, em diferentes estágios do câncer.

 BENTO GONÇALVES, RS, BRASIL, 08/10/2020. Diagnosticada com câncer em setembro de 2019, a jornalista Ana Carolina Azevedo, de Bento Gonçalves, convive há cerca de três meses com o diagnóstico de metástase, estágio da doença que não tem cura. Em um ano de tratamento, ela alimentou a série O que vejo na Oncologia, em seu Instagram, compartilhando curiosidades e momentos marcantes experienciados por ela. (Porthus Junior/Agência RBS)<!-- NICAID(14612738) -->
Desde que descobriu um tumor maligno, Carol encara a vida com os olhos de quem reconhece que a morte é certeza para todos que estão vivosFoto: Porthus Junior / Agencia RBS

— Eu nunca desejei ser um exemplo de superação pra ninguém, porque entendo que a doença é cruel e que as pessoas reagem de formas diferentes. Não queria ser arrogante a ponto de dizer para as pessoas como elas devem se sentir; a forma como publico é como eu lido com a situação. Me surpreendi quando começaram a chegar até mim pacientes de mama e familiares de pessoas oncológicas. São laços que se formam, algo que realmente une as pessoas e considero todas minhas amigas atualmente — conta a jornalista.

Desde que descobriu um tumor maligno, em estágio avançado, aos 33 anos de idade, Carol passou a encarar a vida com os olhos de quem reconhece que a morte é certeza para todos aqueles que estão vivos. Em uma de suas publicações, ela comenta que tornou-se uma paciente exemplar. No último ano, cumpriu quatro sessões da quimioterapia vermelha (com medicamentos mais fortes), 12 sessões da quimioterapia branca, até passar pela mastectomia dupla (cirurgia de remoção das duas mamas, com a colocação de próteses), em abril. Depois disso, ela cumpriu, ainda, 25 sessões de radioterapia, que dariam fim ao tratamento na metade do ano. Algo que, para sua surpresa, não aconteceu.

— Os exames de imagem mostraram metástases, então, clinicamente, não se fala mais em cura, mas em controle. Desde o diagnóstico, em nenhum momento me senti injustiçada, compreendi que isso faz parte da minha jornada e que tenho aprendizados com essas vivências. No decorrer do tratamento, senti que compartilhar isso também fazia parte da minha cura. Possivelmente não terei alta oncológica, mas descobri que a cura está muito além de ter os exames limpos — conclui.

Embaixadora do Outubro Rosa

A visibilidade do caso de Carol acabou tornando-a "Embaixadora do Outubro Rosa" em uma campanha promovida pela loja da Hope Lingerie de Bento Gonçalves. Durante o mês, a cada sutiã comprado no estabelecimento, R$ 10 são destinados à compra de um equipamento a laser que auxilia na recuperação de mulheres em situação de pós-operatório, e custa R$ 4,3 mil. O aparelho será doado ao Instituto do Câncer do Hospital Tacchini.

— Sempre realizamos campanhas no Outubro Rosa e queríamos algo que realmente fizesse a diferença às mulheres que passam por tratamento. A Carol intermediou tudo e a convidamos para a divulgação da campanha, porque ela realmente se tornou uma inspiração, estimulando outras mulheres a ter coragem diante da doença. A campanha está sendo um sucesso e estar perto dela é um presente — afirma Patrícia Buffon, sócia-proprietária da loja.

A ação pode ser acompanhada pelo Instagram da loja, que também está comercializando peças para fora de Bento Gonçalves. Interessados podem entrar em contato pela rede social ou pelo WhatsApp (54) 9121.6663

FRAGMENTOS DE [O QUE EU VEJO NA ONCOLOGIA]

SEU ERNANI | 6 de janeiro de 2020
"Sentou ao meu lado um senhor chamado Ernani. Desatou a falar e eu levei um meio minuto para notar que era comigo. Ele tem as mãos pesadas e usa um boné de propaganda de cor vermelha. É um senhor robusto e segura sua carteirinha de paciente, bastante preenchida e com as páginas amareladas. A minha, por outro lado, ainda parece nova."

O TROFÉU PIPOCA | 22 de janeiro de 2020

Foto: Divulgação / Arquivo pessoal

"Pipoca na oncologia é um presentinho solene que a Iracema da cozinha faz pra gente por bom comportamento. (...)  Mas acontece que o cheiro de pipoca deixa a amiga da outra cadeira muito nauseada - não é justo fazer isso com ela pelo nosso bel prazer. (...)  A empatia é um sentimento muito forte que floresce junto do câncer."

O RUMO DAS HISTÓRIAS | 10 de março de 2020
"Perto de mim, a enfermeira Nati faz o acolhimento de um senhor que começa a quimio hoje. Estou ouvindo ela explicar com carinho o que está por vir. Lembrei do meu primeiro dia! (...)  Todo novo dia, a gente ganha uma nova vida. Isso nos torna capazes de muito mais do que imaginamos."

A DOR DE TRANSMUTAR | 14 de maio de 2020

Foto: Divulgação / Arquivo pessoal

"Olhando em retrospecto, eu fiz a melhor escolha em viver cada medo e cada conquista a seu tempo, porque se eu tivesse pensado sobre a dor dessa cirurgia ou mesmo pesquisado a respeito, talvez eu preferisse desistir."

SAUDADES | 02 de julho de 2020
"Talvez soe estranho falar em saudades da quimioterapia, mas soube que é um sentimento compartilhado por muitas pacientes oncológicas. A saudade não é das aplicações, dos enjoos, da fadiga. É do lugar onde aprendi sobre fé." 

UM ANO SE PASSOU | 18 de setembro de 2020

Foto: Augusto Tomasi / Divulgação

"Um ano que a vida me ensina o valor das pequenezas do cotidiano. Amarrar o sapato é bom, cumprir meus compromissos de trabalho é ótimo, secar os cabelos da minha filha é indescritível."

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