Para recordar de dona Araci Piazza (1929-2020) - Geral - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Memória10/09/2020 | 14h18Atualizada em 10/09/2020 | 15h05

Para recordar de dona Araci Piazza (1929-2020)

Falecida em 25 de agosto, dona Araci auxiliou a resgatar a história da irmã Anoema da Costa Lima, a vítima esquecida da explosão na Metalúrgica Gazola, durante a Segunda Guerra Mundial

Para recordar de dona Araci Piazza (1929-2020) Acervo de família/Divulgação
A jovem Araci em meados da década de 1940 Foto: Acervo de família / Divulgação

Era a noite de 7 de janeiro de 2018, um domingo, quando visitei dona Aracilda da Costa Lima Piazza pela primeira vez. Nem eu e nem ela sabíamos ainda, mas Dona Araci, como costumava ser chamada, seria uma das principais fontes para a matéria que buscava resgatar a história de sua irmã Anoema da Costa Lima - a vítima esquecida da explosão da Metalúrgica Gazola, ocorrida em 22 de julho de 1943.

Familiares das vítimas da explosão na Gazola recordam do episódio que enlutou a cidade durante a Segunda Guerra  

Deparei com uma senhora extremamente simpática, que ajudou a recordar do triste episódio que abalou a família e a cidade 75 anos antes, durante a Segunda Guerra Mundial. Intercalando café, sorrisos e algumas lágrimas, dona Araci confirmou dados, revelou detalhes e acrescentou diversas outras informações que enriqueceram a reportagem publicada por este colunista dali a uma semana, em 14 de janeiro - mesma data em que a irmã morreu, em 1945, após quase dois anos sofrendo com os ferimentos da explosão. 

Reproduzimos aqui parte daquele material:

Nascida em 1929, dona Aracilda tinha 14 anos quando a fábrica explodiu. Morava com os pais e irmãos em uma chácara na esquina das ruas Vinte de Setembro e Humberto de Campos, próximo ao Parque da Imprensa. Lembra que, após ouvirem o estrondo naquela manhã, os pais correram até a então recém-inaugurada BR-116 para saber de Anoema. A filha, porém, só foi identificada no Hospital Pompéia. A mãe, Maria Rita, reconheceu-a por um pedaço do casaco: o rosto estava tomado de fuligem e queimaduras.

– Rasparam a cabeça por causa dos ferimentos, daí ela passou a usar uma espécie de turbante. Os médicos tiravam os pedacinhos (estilhaços de ferro) da cabeça dela um por um – conta.

Dona Aracilda recebeu a reportagem na companhia dos filhos Luiz Eduardo Lima Piazza, Regina Lima Piazza e Elizete Piazza Adami. Todos, em algum momento da vida, ouviram da mãe a história da tia morta na explosão da Gazola. E alguns detalhes lembrados por dona Aracilda no último domingo jogaram ainda mais luzes sobre a saga de Anoema.

Toda essa história ressurgiu no final de agosto, mais precisamente no dia 25, quando dona Araci faleceu, aos 91 anos. Assim como ela auxiliou a resgatar a trajetória da irmã, nesta quinta, dois anos e meio depois, resgatamos também uma parte de sua história. 

Na foto abaixo, Aracilda com a família na chácara dos bugres, próximo ao Parque da Imprensa, no fim dos anos 1940. Da esquerda para a direita, os irmãos Jovelina Bueno e Agenior, Luiz Vicente Piazza, Araci, o pai Archemimo, Raquel, Ary, Alzira Schiavo e Bortolo Schiavo. Embaixo, Mário Bueno e um homem não identificado.

Aracilda da Costa Lima Piazza com a família na chácara dos bugres, próximo ao Parque da Imprensa, nos anos 1940. Da esquerda para a direita, Jovelina Bueno, Agenior, homem não reconhecido, Luiz Vicente, Aracilda da Costa Lima, o pai Archemimo, Raquel, Ary, Alzira Schiavo e Bortolo Schiavo. Abaixo: Mário Bueno e um não reconhecido. Dona Aracilda era a irmã mais velha da jovem Anoema da Costa Lima, última vítima da explosão da Metalúrgica Gazola, ocorrida em 19 de julho de 1943. Dona Araci ajudou a recontar a história da irmã nessa entrevista feita em 7 de janeiro de 2018. Dona Aracilda, 91 anos, faleceu em 25 de agosto de 2020.<!-- NICAID(14587752) -->
Dona Araci e seu Luiz Vicente (ao centro) e a família nos anos 1940Foto: Acervo de família / Divulgação
Momentos de dona Araci nos anos 1940 e com a irmã AlziraFoto: Acervo de família / Divulgação

A família 

Fiquei sabendo da morte de dona Araci pelo neto Guilherme Piazza, que homenageou a avó com uma emocionante postagem no Facebook. Foi Guilherme, juntamente com seus familiares, que forneceu as fotos e informações para esta página.

Nascida em 27 de maio de 1929, em São Francisco de Paula, dona Araci era a mais velha de uma prole de nove irmãos, formada por Alzira, Anoema, Jovelina, Agenior, Anoyr, Adayl, Nilza e Ary. Filha de Archemimo Ribeiro de Lima e Maria Rita da Costa Lima, a jovem migrou para Caxias do Sul quando os pais passaram a residir na antiga Chácara dos Bugres - era a época em que seu Archemimo atuava na antiga Estação Experimental de Viticultura e Enologia. 

Localizada nas proximidades do Parque da Imprensa, a chácara foi moradia da jovem até seu casamento com Luiz Vicente Piazza, nos anos 1950. Inicialmente, a família morou na Rua Ernesto Alves, no Burgo. Posteriormente, os Piazza residiram na Rua Vinte de  Setembro, no mesmo bairro, e nas ruas Luiz Michelon e Antonio Broilo, ambas no Cruzeiro.

Viúva desde 1994 de seu Luiz - metalúrgico atuante na Maesa por 35 anos -, dona Araci deixou, além dos filhos Regina, Luiz Eduardo, Marlene, Elisete e Heloísa, os netos Andréa, Cecília, Adriane, Renata, Thaís, Juliana, Guilherme, Felipe e Laura. 

Aracilda da Costa Lima Piazza (D) e a irmã Alzira Schiavo na década de 1940. Dona Aracilda era a irmã mais velha da jovem Anoema da Costa Lima, última vítima da explosão da Metalúrgica Gazola, ocorrida em 19 de julho de 1943. Dona Araci ajudou a recontar a história da irmã nessa entrevista feita em 7 de janeiro de 2018. Dona Aracilda, 91 anos, faleceu em 25 de agosto de 2020.<!-- NICAID(14587746) -->
Araci (à esquerda) e a irmã Alzira SchiavoFoto: Acervo de família / Divulgação
Família de Aracilda da Costa Lima Piazza em 1973. Elizete, Marlene, o marido Luiz Vicente, Luiz Eduardo (abaixo), Aracilda, Regina e Heloisa. Dona Aracilda era a irmã mais velha da jovem Anoema da Costa Lima, última vítima da explosão da Metalúrgica Gazola, ocorrida em 19 de julho de 1943. Dona Araci ajudou a recontar a história da irmã nessa entrevista feita em 7 de janeiro de 2018. Dona Aracilda, 91 anos, faleceu em 25 de agosto de 2020.<!-- NICAID(14587748) -->
Em 1973: dona Araci e o marido Luiz Vicente Piazza com os filhos Elizete, Marlene, Regina, Heloisa e Luiz Eduardo Foto: Acervo de família / Divulgação
Aracilda da Costa Lima Piazza, o marido Luiz Vicente Piazza e o filho Luiz Eduardo Lima Piazza na década de 1970.Dona Aracilda era a irmã mais velha da jovem Anoema da Costa Lima, última vítima da explosão da Metalúrgica Gazola, ocorrida em 19 de julho de 1943. Dona Araci ajudou a recontar a história da irmã nessa entrevista feita em 7 de janeiro de 2018. Dona Aracilda, 91 anos, faleceu em 25 de agosto de 2020.<!-- NICAID(14587755) -->
Araci, Luiz Vicente e o filho Luiz Eduardo nos anos 1970 Foto: Acervo de família / Divulgação

Leia mais

Lucia Dalle Molle, a heroína da grande explosão de 1943
Dona Zulmira Mazzochi Florian e as lembranças da explosão da Gazola
Memórias de guerra: família de Odila Gubert nos anos 1950
A despedida do pracinha Anastácio Dedea (1922-2020) 

Em livro

Em 2018, dona Araci - acompanhada das irmãs Jovelina Bueno e Alzira Schiavo, e de vários familiares - compareceu à cerimônia que recordou dos 75 anos da explosão da Gazola, no antigo complexo fabril da BR-116. Na ocasião, houve o descerramento de uma placa extra com o nome da irmã Anoema, junto ao obelisco que homenageia as demais jovens mortas em 1943.

Personagem esquecida da explosão da Gazola, Anoema da Costa Lima ganha placa em obelisco

A partir da matéria de 2018 e dessa reparação histórica, a trajetória de Anoema impulsionou ainda o romance ficcional Anoema - A História não Esquece, de autoria da escritora Tania Scuro Mendes. E do qual, logicamente, dona Araci é uma das personagens. 

O lançamento presencial teve de ser adiado em função da pandemia, devendo ocorrer em data a ser definida, na Livraria Do Arco da Velha.

Aracilda da Costa Lima Piazza e o jornalista Rodrigo Lopes em 21 de julho de 2018, junto ao Marco das Moças Operárias, na sede da antiga Metalúrgica Gazola. Dona Aracilda era a irmã mais velha da jovem Anoema da Costa Lima, última vítima da explosão da Metalúrgica Gazola, ocorrida em 19 de julho de 1943. Dona Araci ajudou a recontar a história da irmã, publicada em 13 de janeiro de 2018. Em 21 de julho de 2018, uma placa com o nome da irmã foi afixada no obelisco, após 75 anos de esquecimento. Dona Aracilda, 91 anos, faleceu em 25 de agosto de 2020.<!-- NICAID(14587753) -->
Dona Araci e este colunista em 21 de julho de 2018, quando o obelisco recebeu a placa extra com o nome de AnoemaFoto: Maria de Fátima Valentini Canevese / Divulgação
Aracilda da Costa Lima Piazza com o neto Guilherme Piazza em agosto de 2020. Ela faleceu em 25 de agosto de 2020.<!-- NICAID(14587771) -->
Dona Araci e o neto Guilherme PiazzaFoto: Acervo de família / divulgação
Dona Araci em 2019, quando celebrou os 90 anosFoto: Acervo de família / Divulgação

Leia mais
Segunda Guerra Mundial: a mudança de nome da Praça Dante
Salvo conduto em tempos de guerra
Alberto Arioli: uma doação para enriquecer a história
A Segunda Guerra Mundial em uma carta
Jubileu de prata da Metalúrgica Gazola em 1957
Metalúrgica Gazola: Miss Brasil visita a Brazex em 1958
Gazola: pérolas de um acervo
Metalúrgica Gazola homenageia pracinhas em 1950
A inauguração da Loja Brazex em 1952
Nova fábrica de talheres da Gazola em 1966  

Confira outras publicações da coluna Memória
Leia antigos conteúdos do blog Memória 

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros