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Educação22/09/2020 | 12h19Atualizada em 22/09/2020 | 12h20

Incerteza e crise na pandemia motivam redução de alunos no ensino superior na Serra

Situação que já ocorria entre março a junho acabou agravando-se no segundo semestre letivo de 2020

Incerteza e crise na pandemia motivam redução de alunos no ensino superior na Serra Morgana Moraes / Divulgação/Divulgação
Vaneska Bezerra iniciou o curso em 2018 mas, diante da crise, preferiu suspender os planos de formar-se em 2022 Foto: Morgana Moraes / Divulgação / Divulgação

Os planos de se formar no curso de Jornalismo do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), de Caxias do Sul, em 2022, estão temporariamente suspensos para Vaneska Karolina Albuquerque de Siqueira Bezerra, 28. A moradora de Farroupilha iniciou seus estudos na área em 2018, mas, a crise da pandemia acabou afetando diretamente a sua vida acadêmica. Vaneska presta serviços terceirizados a uma agência de comunicação, na cidade onde vive, mas era da venda de produtos personalizados que garantia recursos para a formação — inicialmente prejudicada e, agora, completamente interrompida.

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— Quando começou a pandemia as vendas caíram bastante, principalmente no período em que o comércio ficou fechado. Por conta disso acabei atrasando algumas mensalidades do primeiro semestre, o que impede, agora, que eu me matricule no segundo. Como não sabemos como vai ser daqui para frente, optei por deixar assim por enquanto e a partir do próximo ano renegociar minha dívida e tentar voltar — comenta a estudante.

Mesmo com a possibilidade de renegociar as mensalidades atrasadas, as incertezas em relação aos próximos meses fazem com que Vaneska não queira mais se comprometer em 2020.

— Pretendo voltar no ano que vem, provavelmente, assim que passar um pouco essa fase mais caótica e de incertezas, pois como sou autônoma, dificulta um pouco não saber qual será a minha renda no próximo mês. O impacto dessa interrupção é justamente em ralação à formatura. Quanto mais ela é adiada, mais outros planos também são — afirma.

Sinepe confirma redução

O Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe/RS) ainda não tem números consolidados, mas afirma que a taxa de alunos captados, assim como de rematrículas para o segundo semestre acadêmico nas faculdades e universidades do Estado sofreram uma significativa queda em relação ao período anterior à pandemia. De acordo com o presidente da entidade, Bruno Eizerik, dentre as instituições educacionais, as de ensino superior foram as segundas mais afetadas pela atual crise, ficando atrás, somente, das de educação infantil.

Eizerik afirma que, para 2020, havia uma expectativa de recuperação do setor, economicamente abalado pelo fim do FIES e pela crise financeira que o Brasil enfrentou nos últimos dois anos. Este cenário, porém, acabou agravando-se com a pandemia de coronavírus, que tem motivado a evasão de estudantes do ensino superior.

— O aluno da rede privada é, em sua maioria, trabalhador que perdeu o emprego ou teve seu salário reduzido. Neste segundo semestre as matrículas estão menores, assim como as rematrículas. Além disso, os que permanecem estudando, optam pela redução dos créditos contratados ou as disciplinas oferecidas no modelo EAD (Educação à Distância), que acaba sendo mais em conta — observa o presidente do Sinepe/RS.

Um levantamento do Sinepe/RS divulgado no primeiro semestre já demonstrava os efeitos da pandemia no ensino privado. Nas universidades, a média de inadimplência chegou a 23% em maio, estável em relação a abril. Porém, na comparação com o mesmo período do ano passado, o aumento médio foi de 34,6%. O cancelamento estava em 13,8%, três vezes mais do que em abril.

— A inadimplência ficará parecida com o ano passado, não por ter diminuído, mas por se ter cada vez menos alunos para cobrar — afirma o presidente da entidade.

Para Otávio Caldeira Rodrigues, 22, a questão financeira e também de organização motivaram a saída temporária da FSG, onde ele cursa Publicidade e Propaganda desde 2018. Atuando na área, como editor de vídeos em uma empresa caxiense, ele se diz descontente com a transição para o método online de ensino que, na opinião dele, ainda não se mostrou eficaz.

— A faculdade optou por não dar desconto aos seus alunos, e muito menos abrir os motivos dessa decisão. E, ao seguir com as aulas de forma online, não encontrou a melhor maneira de manter o seu ensino. As aulas se tornaram rasas e pouco atrativas. Pretendo voltar, mas não tenho data certa. Com a pandemia, o diploma ficou mais distante do que pensava... Cursos online menores, que focam no que precisamos aprender, entregam muito mais do que a faculdade tenta entregar em seis meses — afirma o estudante.

Inserida no cenário da educação privada, que sente os impactos econômicos da covid-19 — incluindo a evasão e inadimplência dos alunos — , a FSG afirma que "adotou soluções para minimizá-los frente a seus alunos, de forma que possam dar continuidade aos seus estudos, como medidas de flexibilização de pagamentos das mensalidades a todos os alunos, por meio de parcelamento, além da oferta de programa de crédito educativo, como o Pravaler, sendo os juros arcados pela própria Instituição, e o Programa Auxílio Desemprego com condições especiais para essa situação".

Crise exige reinvenção

A retração que afeta o setor educacional também foi sentida, na segunda metade deste ano, na Universidade de Caxias do Sul (UCS), a maior da Serra. A instituição também não apresenta números e afirma que eles são oscilantes conforme o andamento do distanciamento social, ao longo dos meses, e também em função da flexibilidade de ingresso na universidade, pelo Processo Seletivo Contínuo.

Nos casos de estudantes que não retornaram ou não matricularam-se para o segundo semestre, de acordo com a UCS, as principal justificativa apresentada é a diminuição da capacidade de investimento ou o redirecionamento do orçamento familiar em virtude da pandemia.

Para tentar contornar este cenário, a UCS afirma que colocou em prática ações de renegociação individual, isenção de multas e outros encargos sobre mensalidades não pagas no primeiro semestre de 2020 e, ainda, implementou o desconto progressivo para ampliação de contratação das disciplinas "contribuindo para que o estudante acelere sua conclusão do curso e, com isso, o seu ingresso no mercado de trabalho", afirmou a instituição, por meio de assessoria. A UCS também vem concedendo seguro educacional gratuito a estudantes que perderam o emprego; e realiza a manutenção do pagamento de estagiários e bolsistas.

Aos estudantes matriculados, além das aulas síncronas online, implementadas desde 23 de março — convertendo 2,7 mil disciplinas virtuais em 3,7 mil turmas online — a UCS forneceu kits para estudos em casa, disponibilizando, ainda softwares e acompanhamento contínuo, assim como o serviço delivery de livros pelo sistema da biblioteca.

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