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Memória07/07/2020 | 07h00Atualizada em 07/07/2020 | 21h40

Os Dezoito do Forte, a inesquecível "rua das cabritas"

Trecho que gerou o apelido, nos anos 1930 e 1940, ficava entre a escadaria do Parque dos Macaquinhos e o Colégio do Carmo

Os Dezoito do Forte, a inesquecível "rua das cabritas" Studio Geremia/Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação
O início do trecho das cabritas: a Rua Os Dezoito do Forte esquina com a Borges de Medeiros durante a construção do novo pavilhão da Metalúrgica Abramo Eberle, nos anos 1940 Foto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

Moradores mais jovens nem cogitam que, algum dia, a rua teve esse nome, mas para quem foi criança nos anos 1930 e 1940, a história ainda é bastante lembrada. Tanto que acabou dando nome ao livro autobiográfico escrito por dona Lourena Segalla Seidl, 96 anos, filha caçula do imigrante italiano Luiz Segalla e de dona Lucinda Nicoletti, sua segunda esposa.

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Lançado em 2003, Histórias da Rua das Cabritas é uma deliciosa viagem pela saga das famílias Segalla e Seidl e seu cotidiano na Rua os Dezoito do Forte e arredores, mesclado aos costumes de centenas de outros habitantes de Caxias na primeira metade do século 20. Sobre as cabritas em si, dona Lourena destacou:

“Não que toda Rua Os Dezoito do Forte fosse chamada de Rua das Cabritas, mas o quarteirão que vai da antiga escadaria do Parque da Exposição (Macaquinhos) até o Colégio Nossa Senhora do Carmo. Naquela época (anos 1930), lá em casa, tínhamos uma vaca chamada Moreta (Morena), pois era toda preta, que nos dava o leite necessário para toda a família: pai, mãe, avó e todos os sete filhos. Certo dia, alguém, ao passar, deixou o portão aberto. A rua estava cheia de crianças, era o quarteirão de mais crianças da cidade. Como uma vaca é uma vaca, a criançada começou a correr, o animal foi atrás e foi um Deus nos acuda, que acabou com a vaca levantando, com os cornos, minha prima Antonieta. A tia Ema, mãe de Antonieta, mostrando as costas esfoladas da menina, falou para minha mãe: – Varda, Lucinda, lá podeva vergue sbusá i pulmoni (Olha, Lucinda, ela poderia ter-lhe furado os pulmões). Diante de tanto perigo, deram sumiço na vaca”.

Portão aberto

Sem vaca e sem leite, a família tratou de achar outra “solução”, conforme lembrou dona Lourena no livro:

“Mamãe estava inconformada com a despesa na compra de leite para tantas pessoas e, numa das visitas dominicais a meus avós, voltou com duas cabritas que havia comprado e que eram uma grande novidade. Estas eram mansas e tranquilas, e logo conquistaram toda a criançada. A partir de então, o portão passou a ficar aberto, e elas iam e vinham a seu bel prazer, na busca do pasto, no local onde hoje fica a escadaria do antigo Parque da Exposição e que, na época, era uma descida que mais parecia a estrada do presépio”.

Na foto acima, a Rua Os Dezoito do Forte ainda de chão batido, captada no início dos anos 1940. Era a época da construção do novo pavilhão da Metalúrgica Abramo Eberle, na esquina com a Borges de Medeiros. Abaixo, o registro de um desfile cívico em que participavam funcionários do Eberle, em meados da década de 1940. O local é o trecho final da Borges em direção a Dezoito, onde situava-se a antiga descida para o Parque dos Macaquinhos. Exatamente por onde as cabritas circulavam...

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Desfile cívico da Semana da Pátria em 1940, com os funcionários na Rua Borges de Medeiros. No prédio da esquina das ruas Borges de Medeiros e Os Dezoito do Forte está instalada famosa piteira da Metalúrgica Abramo Eberle, no telhado.<!-- NICAID(14187017) -->
Anos 1940: a Rua Borges de Medeiros entre Sinimbu e o trecho da Dezoito conhecido por Rua das Cabritas (ao fundo), durante um desfile da Semana da PátriaFoto: Studio Geremia / Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami,divulgação

Animais na delegacia

A tranquilidade das cabritas pela rua não durou muito, segundo dona Lourena:

“Certo dia, vieram dois brigadianos, laçaram as pobres cabritas e as levaram, Mamãe, alertada pela criançada, correu atrás, em socorro das cabritas, mas não houve jeito, apesar dos gritos e pedidos dela, que implorava: Maria Santíssima, cosa fargue desso (Maria Santíssima, o que fazer agora?). Mesmo assim, as inocentes cabritas foram levadas à Intendência, que ficava onde hoje é o Museu Municipal de Caxias do Sul, ao lado do Colégio Presidente Vargas. No fundo ficava a delegacia. Depois de muita explicação, foi paga uma multa e, após promessa de mantê-las presas, elas foram devolvidas, agora para viverem confinadas no pátio de nossa casa. Nessa altura, porém, a rua já estava batizada…”

Os jovens namorados Lourena Segalla Seidl e Danilo Seidl em 1944<!-- NICAID(14538870) -->
Em 1944: os jovens namorados Lourena e DaniloFoto: Acervo de família / Reprodução
Danilo Seidl e Lourena Segalla Seidl durante o 1º aniversário da filha Eliana, em 1953<!-- NICAID(14538868) -->
Danilo e Lourena durante o 1º aniversário de Eliana, em 1953Foto: Acervo de família / Reprodução
A jovem Lourena Segalla na capa do livro Histórias da Rua das Cabritas, de 2003<!-- NICAID(14538867) -->
A jovem Lourena Segalla na capa do livro de 2003Foto: Acervo de família / Reprodução

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A família Segalla

Pela árvore genealógica elaborada pela família, Luiz (Luigi) Segalla e suas duas esposas tiveram 12 filhos. Da união com Maria Tessari nasceram Ermelinda, Tereza, Antonio, Laura e Elena. Após a morte da primeira mulher, Luiz casou-se com Lucinda Nicoletti, com quem teve outros sete: Severina, Luiza, Victorio, Angelina, Luiz, Paulo e Lourena.

Nascida em 2 de janeiro de 1924, dona Lourena conheceu o jovem Danilo Belmonte Seidl em 1942. Do casamento, ocorrido em 1945, nasceram os filhos Sérgio, Celso, Eliana, Márcio e Luiz. Acima e ao lado, algumas imagens da trajetória da família. Detalhe: na foto de capa do livro Histórias da Rua das Cabritas, a jovem Lourena aparece como pastora de ovelhas, o que é explicado em seguida: “Na época, as fotos eram raras, especialmente de cabritas…”  

Lembranças em 2015

Edição do Pioneiro de 20 de junho de 2015, quando Caxias celebrou 125 anos de emancipação política, trouxe várias recordações de dona Lourena Segalla Seidl. Entre elas, logicamente, a história da rua das cabritas. Leia AQUI

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Lourena e as irmãs Laura, Tereza e Lina na frente de casa<!-- NICAID(14538869) -->
Lourena e as irmãs Laura, Tereza e Lina na frente de casaFoto: Acervo de família / Reprodução

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