Moradores que vivem às margens do rio temem ser transferidos para área de criminalidade em São Sebastião do Caí - Geral - Pioneiro

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Enchente 10/07/2020 | 14h14Atualizada em 10/07/2020 | 14h29

Moradores que vivem às margens do rio temem ser transferidos para área de criminalidade em São Sebastião do Caí

 Prefeito admite problema, mas afirma que pontos de tráfico surgiram após famílias venderem moradias

Moradores que vivem às margens do rio temem ser transferidos para área de criminalidade em São Sebastião do Caí Antonio Valiente/Agencia RBS
Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Moradores de São Sebastião do Caí que vivem às margens do Rio Caí e enfrentam dificuldades por causa das constantes enchentes, como as registradas nas últimas semanas, temem ser transferidos para uma comunidade marcada pela violência. 

As famílias vivem bem próximas ao rio no bairro Navegantes. A cada cheia, a situação é a mesma: eles são retirados de casa e levados para um ginásio ou salão da igreja. A maioria afirma que já se acostumou a ver a água levar o pouco que eles têm. Mas se eles conhecem e sentem na pele essa realidade por que seguem no mesmo lugar? A resposta de 10 moradores é a mesma: não há para onde ir, falta condições de comprar uma casa ou morar de aluguel e seria igualmente temeroso morar na Rua Sol Nascente, no Loteamento Popular, onde há denúncias de ações de traficantes. Algumas dessas famílias receberam moradias nessa comunidade, que fica bem afastada das águas do Rio Caí. 

-  A casa é boa, mas não tem como morar ali. O tráfico tomou conta e ninguém faz nada. Temos que escolher entre a enchente ou viver no meio do crime. Eu tenho filhos e não vou levar as crianças morar no meio de traficante - relata uma moradora que tem a identidade preservada. 

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O relato de outras famílias é o mesmo: não tem como ter uma vida segura na Rua Sol Nascente porque um grupo criminoso domina o local. Até mesmo as crianças apontam para a direção do loteamento e contam ter medo de viver lá. 

Por outro lado, a situação é de angústia e espera porque as famílias não sabem o que irão encontrar e se poderão voltar paras as casas. 

- Já vi minha casa ser levada mais de cinco vezes pelas cheias do Caí. Claro que eu queria sair da beira do rio, mas não tenho condições. Se sair tem que ser para um lugar seguro. Quem gosta de viver assim? Perder o que conquista ao longo de toda uma vida toda vez que a água sobe? Viver em abrigo dormindo no chão e passando frio? -  desabafa outra moradora abrigada no ginásio.

Ela conta que essa foi uma das maiores enchentes que já presenciou. O nível do rio chegou a 14,40 metros na quarta-feira (8), ficando abaixo apenas de outras duas marcas: de 14,66 metros em outubro de 2016, e de 14,85 metros em julho de 2011. Os moradores relatam ainda que há famílias que são levadas para moradias provisórias onde a prefeitura paga aluguel social e que não tem condições de receber as pessoas:

-  Tem casa que tinha que ser interditada...fiação exposta, o rio sobe e a água entra. Não tem condições de morar, mas as pessoas não tem para onde ir - relata uma moradora. 

A expectativa é que a remoção das famílias comece na segunda-feira (13), mas isso ainda depende das condições climáticas, já que há previsão de chuva para o final de semana. 

O QUE DIZ O MUNICÍPIO 

O prefeito Clóvis Duarte (MDB) admite que há problema na Rua Sol Nascente, mas afirma que pontos de tráfico surgiram após famílias venderem moradias de maneira irregular e voltarem a viver na beira do rio: 

- Moro em São Sebastião do Caí há 35 anos e fui policial civil, então conheço bem a realidade do município e quem mora em cada lugar da cidade. No começo das remoções das famílias do bairro Navegantes, que são os moradores mais afetados pelas cheias e que vivem realmente na área que mais alaga quando o Caí sobe, a Rua Sol Nascente não tinha problemas de segurança pública. Hoje há alguns pontos de tráfico, e a situação está mais complicada, mas nem sempre foi assim. 

Ele explica que a Rua Sol Nascente foi criada de forma planejada na segunda metade dos anos 2000 para receber moradores retirados de áreas que alagam no município. São 57 propriedades no Loteamento Popular:

-  Sabemos que várias pessoas que moram na zona de enchente venderam as casas que foram destinadas pelo município, uma venda de forma irregular, e voltaram para a beira do rio. Temos ações na Justiça de despejo e reintegração de posse dessas casas que foram vendidas para realocar as pessoas que sabemos que não tem onde morar e que vivem nas áreas ribeirinhas. São casas de alvenaria com boa estrutura em uma área com calçamento e infelizmente, nem todos, mas alguns moradores venderam essas moradias. Há problemas com o tráfico, mas a maior parte de quem vive ali são pessoas trabalhadoras e honestas. 

O coordenador do setor de Habitação da prefeitura, arquiteto Alexandre Koch, também afirma que há problemas em pontos isolados no loteamento:

- Duas casas que foram usadas como ponto de tráfico foram retomadas pelo município. Essas moradias serão usadas para realocar famílias que moram nas áreas ribeirinhas e não tem onde morar. Há esses problemas, mas a maioria das pessoas que vivem na Rua Sol Nascente são pessoas boas, que trabalham e são honestas. Sabemos que com o processo de urbanização e de ocupação desses espaços a tendência é que pessoas de má índole acabem indo embora - aponta ele. 

Confira as fotos 

RECONSTRUÇÃO 

Essa sexta-feira (10), assim como a quinta-feira (9), é dia de limpeza na cidade. Tantos os moradores quanto a prefeitura se dedicam a tentar reconstruir o que o rio levou. A secretária de Obras está limpando os pontos onde a água já recuou para analisar a situação. 

Desta vez, mais de 1,7 mil pessoas foram afetadas pela enchente na cidade. Destas,172 pessoas de 63 famílias estão abrigadas no ginásio municipal de esportes e no salão da igreja católica no bairro Rio Branco longe da água do rio.

Em razão dos alagamentos, a Defensoria Pública recomenda à prefeitura de São Sebastião do Caí que garanta assistência às vítimas. Entre os alertas estão realocação, alimentos, tratamento médico e materiais de higiene, enquanto perdurar a situação de calamidade. Além disso, a instituição recomenda que o município reconstrua as moradias atingidas ou providencie aluguel social às pessoas em vulnerabilidade. 

- A Defensoria Pública entende que a solução extrajudicial da questão mostra-se mais adequada à preservação do direito à moradia, saúde, alimentação, da população vulnerável, integrada por mulheres grávidas, crianças e pessoas idosas -  afirma a defensora pública Juliana Dewes Abdel, na recomendação.

O prefeito B) garante que o município presta toda a assistência necessária às famílias desabrigadas, como abrigo, alimentação, cobertores e segue com esse trabalho até que elas possam voltar para às casas.

- A medida que a água for baixando vamos avaliar quem está desabrigado e não tem como voltar para casa, que irá precisar de aluguel social ou de ajuda para reconstruir as moradias. Ajudamos com material para reconstruir àquelas que podem ser recuperadas e mantemos a família abrigada ou pagamos aluguel social até que eles possam voltar para casa em segurança.

Ainda segundo o prefeito todas as administrações deram assistência aos flagelados e desta vez não será diferente:

- Nos já estamos acostumados com a enchente e sabemos como agir. É a terceira maior enchente de todos os tempos e a prefeitura dará assistência a todas as famílias, assim como tem sido ao longo de todos os governos. Temos muitos danos e nem sabemos ainda o resultado desta última que foi uma das piores. 

Quem estiver precisando do auxílio da Defensoria Pública, devido às consequências da enchente, pode entrar em contato pelo telefone (51) 99980-8376.

PANDEMIA 

A recomendação da Defensoria Pública reitera, ainda, que a necessária proteção à saúde durante a pandemia de covid-19, inclusive, com a fiscalização quanto ao uso de máscaras de proteção, principalmente nos meios de possível aglomeração nos abrigos. 

O prefeito reitera que as famílias foram alojadas em dois ginásios para manter o distanciamento social e evitar aglomerações em função do coronavírus, e também receberam máscaras e álcool gel para higienizar as mãos. No ginásio municipal, as barracas foram montadas com uma distância adequada uma das outras, contudo, enquanto a reportagem esteve no espaço na manhã da quinta, as pessoas estavam bem próximas umas das outras e não usavam máscaras. 

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