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Memória23/07/2020 | 07h00Atualizada em 23/07/2020 | 07h00

Henrique Cia e um violino de mármore em 1923

 O instrumento confeccionado na fábrica recebeu a medalha de ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência, ocorrida no Rio de Janeiro, entre 1922 e 1923

Henrique Cia e um violino de mármore em 1923 Memória/Acervo família Cia,divulgação
A fachada da Marmoraria Cia (ao fundo), na Av. Júlio, por volta de 1960, com os passantes conferindo os filmes em cartaz no Cine Real. Negócio fundado por Henrique Cia em 1912. Comandado posteriormente pelo filho Leon Cia. Foto: Memória / Acervo família Cia,divulgação

Fundada pelo imigrante italiano Henrique Cia na sequência de sua chegada a Caxias, em 1912, a Marmoraria Cia é até hoje lembrada pelos moradores mais antigos do bairro São Pelegrino. E um dos episódios marcantes da trajetória da empresa ocorreu na década de 1920. Foi quando um violino de mármore confeccionado na fábrica recebeu a medalha de ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência, ocorrida no Rio de Janeiro entre 7 de setembro de 1922 e 23 de março de 1923.

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O primeiro lugar foi noticiado em uma nota publicada no jornal “O Brazil” de 16 de junho de 1923, sobre a participação dos expositores gaúchos no certame. Detalhe: a peça enviada ao Rio por Leon Cia (filho de Henrique) acabou quebrando durante a viagem. Confira o texto original:

“O sr. Leon Cia, sócio da firma industrial Henrique Cia & Cia, desta cidade, recebeu comunicação, ontem, do dr. Julio Azambuja, delegado dos expositores rio-grandenses, de haver sido premiado com medalha de ouro, pelo júri da Exposição Internacional do Rio de Janeiro, o artístico e primoroso violino de mármore com que a mesma firma concorreu ao grande certame do centenário. Esse belo instrumento, conforme já tivemos ocasião de dizer, chegou deploravelmente quebrado a capital do país, o que quer dizer que, se não fôra isso, teria ele fatalmente feito jus a um prêmio de mais alto valor e recompensa”.

 LEMBRANÇA EM 1950
Vinte e sete anos depois, o episódio foi lembrado por seu Henrique Cia durante uma entrevista feita pelo jornal Pioneiro às vésperas da Festa da Uva de 1950. Octogenários, Henrique e a esposa Mariana foram perfilados na coluna “Galeria dos Pioneiros”, publicada em 18 de fevereiro daquele ano:

“Mostrou-nos o senhor Henrique Cia diversos trabalhos de arte confeccionados em mármore de Carrara, dizendo-nos que, quando moço, trabalhara nas pedreiras de Carrara, onde tivera oportunidade de aperfeiçoar-se em sua arte. Foi com especial carinho que Henrique Cia nos mostrou uma finíssima obra de arte, um violino de mármore, artisticamente cinzelado, por cujo trabalho foi agraciado no Rio de Janeiro com diploma de honra e medalha de ouro”.

Por onde andaria esse violino hoje? Informações para o e-mail do alto da página.

O fundador da Marmoraria Cia, senhor Henrique Cia, em meados de 1915<!-- NICAID(14550859) -->
O fundador da Marmoraria Cia, senhor Henrique Cia, em meados de 1915Foto: Memória / Acervo família Cia,divulgação

Os primeiros tempos
Conforme informações contidas no perfil publicado pelo Pioneiro em 1950, Henrique Cia e a esposa, Mariana Corbellini Cia, nasceram na comuna de Pietrasanta, província italiana de Lucca - ele em 1871, ela, em 1870. A chegada ao Brasil, segundo relato de dona Mariana, deu-se quando ambos tinham por volta de 25 anos:

“Foi no ano de 1895 que partimos de nossa terra natal. Chegamos ao Brasil no dia 25 de outubro daquele ano e fixamos residência em São Paulo. Foi lá que nasceram Leon e Dino (os filhos). Pouco tempo depois, mudamo-nos para o Rio de Janeiro e, mais tarde, para Buenos Aires, pois lá havia grandes empresas onde Henrique podia desenvolver sua arte”.

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Caxias foi destino do casal e filhos a partir de 1912, conforme lembrado pela matriarca.

”Foi um patrício nosso que, em 1912, nos convidou a vir para o sul do Brasil. Quando aqui chegamos, Caxias era uma pequena vila, sem calçamentos, sem luz, sem instalações de água encanada. Mas nós gostamos logo de Caxias. Eu, principalmente, me senti logo tão bem nesta terra que já as saudades da pátria não me faziam sofrer tanto. A esta altura, o sr. Henrique Cia, que ouvia absorto a companheira de tanto anos, falou-nos de sua chegada a Caxias, terra que, como nos disse ele, desde aqueles tempos era bonita. Disse-nos mais: que o segundo automóvel a aparecer em Caxias era de sua propriedade. E foi contando da sensação, do assombro que causava um automóvel a quem ainda não conhecia aquele invento moderno”.

 O casal Henrique Cia e Mariana Cia com os filhos Leon Cia (E) e Dino Cia <!-- NICAID(14550860) -->
O casal Henrique Cia e Mariana Cia com os filhos Leon Cia (E) e Dino CiaFoto: Memória / Acervo família Cia,divulgação

Jazigos e esculturas
A Marmoraria Cia foi um dos estabelecimento citados na publicação da editora Belas Letras São Pelegrino – Quem Te Viu, Quem Te Vê... , lançado em 2015 pelos autores Tania Tonet, Charles Tonet e Ana Seerig, e de onde foram reproduzidas as fotos desta página. 

Conforme o texto, Henrique Cia foi o responsável por trazer a arte em mármore para Caxias do Sul. O trabalho, aprendido ainda na Itália e desenvolvido nas oficinas das cidades por onde Henrique passou, fez com que o patriarca instalasse o ateliê em uma Caxias em franca expansão logo após a chegada do trem, em 1910 - produzindo, a partir daí, belos jazigos e objetos de decoração, como vasos, abajures e esculturas.

A fábrica situava-se na Avenida Júlio de Castilhos, no local do atual Centro Comercial São Pelegrino - mais conhecido como a galeria em frente ao antigo Cine Real. Funcionou ali até o final da década de 1960, sob o comando de três gerações: de Henrique, do filho Leon Cia e, posteriormente, do neto Sérgio Luiz. 

Falecimento
Henrique Cia faleceu em 6 de maio de 1950, três meses após a entrevista citada acima. Anúncio fúnebre publicado pelo Pioneiro em 13 de maio daquele ano trazia os agradecimentos da família aos médicos Armando Galeão dos Santos, Augusto Sartori e José Bellardinelli, ao farmacêutico Irineu Machado, ao padre Benini e aos bons vizinhos, “pelo conforto moral que nos deram”. Seu Henrique tinha 79 anos. 

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