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Memória14/07/2020 | 07h00Atualizada em 14/07/2020 | 13h48

Café América: uma madrugada rubra em 1929

Incêndio destruiu casarão de madeira da Av. Júlio, ao lado do antigo Banco Pelotense

Café América: uma madrugada rubra em 1929 Domingos Mancuso/acervo de Renan Carlos Mancuso,divulgação
Júlio com Marquês do Herval em 1915: o antigo Banco Pelotense e o casarão de madeira do Café América (à esquerda), atingido por um incêndio em 1929 Foto: Domingos Mancuso / acervo de Renan Carlos Mancuso,divulgação

Um dos episódios mais marcantes da trajetória do Café América, abordada na coluna de ontem, foi o incêndio que atingiu a primeira sede do estabelecimento. O sinistro, ocorrido em 3 de julho de 1929, destruiu o casarão de madeira localizado na Av. Júlio, ao lado do antigo Banco Pelotense (atual Banrisul). Reportagem do semanário “O Popular”, editado pelo advogado e professor Demétrio Niederauer, destacou o ocorrido. Intitulada “Madrugada Rubra - Fogo e Luto”, a matéria de 4 de julho de 1929 foi farta em detalhes:

“A madrugada de ontem constituiu um triste despertar para Caxias. Pouco depois das 4h, ouviu-se alarme no centro da cidade. Era o penacho sinistro de fumo que, preso à crista do telhado do Café América, denunciava o fogo que lavrara no interior daquela casa. O Café América é uma antiga casa pública desta cidade, localizado no prédio número 1.660, à Rua Júlio de Castilhos, junto ao Banco Pelotense, que fica na esquina da Praça Dante. Durante muito tempo pertenceu ao sr. Gabriel Agostinelli. Seu antigo proprietário o vendeu depois aos senhores Alfredo Nabinger e Francisco Freitas. A sociedade entre ambos foi mais tarde dissolvida, de modo que ultimamente só o senhor Freitas era o proprietário” .

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Conforme o texto, nenhuma pessoa dormia no interior do café, apenas nas residências vizinhas:

 “À esquerda, ficava o edifício do Banco Pelotense. À direita, o prédio número 1.650, de propriedade do senhor Fioravante Zatti, no qual residia, na parte superior, o senhor Ambrósio Bonalume, com sua família; e na parte térrea era estabelecido com alfaiataria o senhor Benvenuto De Marchi. Quando foi dado o alarme, mal a família Bonalume pode escapar pela escada dos fundos, pois a da frente já havia sido atingida pelo fogo”. 

A ocorrência foi informada pelo coronel Galdino Luiz Esteves, que “ao ter conhecimento do fato, telefonou para o quartel do 9º Batalhão de Caçadores, ordenando o comparecimento de algumas praças para auxiliar os trabalhos de salvamento e extinção do fogo”. 

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Cartão-postal do Banco Pelotense, na esquina da Av. Júlio de Castilhos com a Rua Marquês do Herval. Prédio foi demolido e posteriormente, nos anos 1950, a esquina recebeu a nova sede do Banrisul. Antigo postal da Livraria Saldanha. Entre os casarões de madeira da mArquês do Herval, o Hotel Veiga.<!-- NICAID(13728958) -->
Júlio com Marquês do Herval em 1928: cartão-postal destaca parte do Café América (E), o Banco Pelotense (atual Banrisul) e o Hotel Veiga (prédio de alvenaria à direita)Foto: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / divulgação

Morte no Hotel Viega

Conforme o texto de 1929, o Hotel Veiga (na Marquês, ao lado do futuro Cine Guarany) era separado dos fundos dos prédios sinistrados por uma área aberta de cerca de 20 metros:

“O vento, porém, logo envolveu o hotel em fumo e faíscas. No quarto número 48, no quarto andar, dormia o jovem Raul Lima, 21 anos, que há pouco se empregara no Banco Popular. Ele havia dormido com a janela aberta e acordou, provavelmente, quando a fumaça e as faíscas já tinham invadido seu aposento. Próximo do quarto dele dormia o gerente do hotel, senhor Henrique Vanoni, o qual desceu imediatamente. Antes, porém, diz Vanoni que bateu à porta do quarto de Raul para acordá-lo, mas a porta estava fechada por dentro. Vanoni, depois de verificar que o incêndio era no prédio vizinho, saiu para a rua juntamente com o senhor Antonio Veiga, proprietário do hotel. Olhando para dentro do cercado, notaram um vulto que se mexia no chão. Aproximando-se, reconheceram Raul. O inditoso moço despenhara-se da janela do quarto, a nada menos de 18 metros de altura, recebendo grande choque traumático e várias fraturas nas pernas e braços, além de dilaceramento dos tecidos em várias partes. Amparado pelas pessoas que o encontraram, foi conduzido à Farmácia Moderna, onde o doutor Luiz Faccioli deu-lhe uma injeção de óleo canforado. Sob ação desta, Raul proferiu poucas palavras, para pedir que o matassem, pois não podia suportar o sofrimento. Estava já presente o Padre Zanettin, que ministrou os santos óleos a Raul, tendo este falecido logo depois, quando era conduzido ao Hospital Pompéia. Seu sepultamento realizou-se com extraordinário acompanhamento. Raul era irmão do sr. Onofre de Lima e Silva, industrialista nesta praça, e noivo da senhorita Elda Martini”.

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Agências bancárias e estabelecimentos financeiros tradicionalmente ocupam espaços nobres e destacam-se pela riqueza arquitetônica, servindo como pontos de referência na área central de qualquer cidade. Nem todos, porém, sobrevivem. Entre as décadas de 1940 e 1960, tempos em que termos como patrimônio histórico e preservação nem eram cogitados, três exemplares sucumbiram para dar lugar a prédios que dialogavam com a chamada modernização de Caxias.Na esquina da Av. Júlio de Castilhos com a Rua Dr. Montaury, o antigo Banco Nacional do Comércio cedeu espaço ao Edifício Solaris, erguido no final da década de 1960. Na foto acima, um registro do fotógrafo Domingos Mancuso para a majestosa agência, no início da década de 1930.Do outro lado da Praça Dante Alighieri, o prédio do antigo Banco Pelotense, na esquina da Júlio com a Marquês do Herval, abrigou posteriormente o Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Demolida no final da década de 1940, a estrutura de dois pavimentos (ao lado, em foto de 1915) deu lugar ao edifício de cinco andares que abriga a atual sede e escritórios do Banrisul. Na mesma Av. Júlio de Castilhos, entre a Borges de Medeiros e a Alfredo Chaves, outra preciosidade virou pó. Primeiro estabelecimento bancário instalado em Caxias do Sul, o Banco da Província do Rio Grande do Sul foi demolido em meados dos anos 1960. Ironicamente, para a construção do Edifício... Província. Na foto ao lado, um registro de Domingos Mancuso para o prédio em 1918.<!-- NICAID(10385772) -->
Júlio com Marquês do Herval em 1947: o prédio reformado e já sediando o Banrisul e o casarão de alvenaria (E) erguido no lugar do Café AméricaFoto: Reno Mancuso / acervo de Renan Carlos Mancuso,divulgação

Os prejuízos

O prédio do Café América, pertencente ao coronel e ex-prefeito Miguel Muratore (gestão 1930-1935), era todo de madeira e o outro, contíguo, de construção mista. Ambos tinham seus acervos segurados:

“O sr. Bonalume tinha seu mobiliário seguro na Companhia Internacional, não tendo salvo nada. As existências da alfaiataria, que estavam seguras na Royal Exchange, foram quase todas salvas. Do Café quase nada se salvou. O prédio do senhor Luiz Battastini, contíguo aos dois incendiados, não estava no seguro, por ter este vencido havia poucos dias. Nos prédios vizinhos, inclusive no Hotel Veiga, houve pânico entre as famílias, pois o vento ameaçava fazer o fogo propagar-se”. 

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL  (01/07/2014) Fotos aereas  e de locais tradicionais de Caxias do Sul. Coleção Hildo Boff. Memória 114. Na foto, Prédio do Clube Juvenil e Banrisuil, meados da décda de 1950.<!-- NICAID(10634178) -->
Júlio com Marquês do Herval em 1960: o casarão de alvenaria entre o Edifício Zatti (E) e o novo prédio do Banrisul, antes do prolongamentoFoto: Optica Caxiense / Divulgação

Na casa

Após o incêndio de 1929, um casarão de alvenaria foi erguido pela família Muratore no local da antiga construção em madeira da Avenida Júlio. O prédio de dois andares permaneceu ali até ser demolido, em meados de 1960. Foi quando o novo edifício do Banrisul, inaugurado em 1952, recebeu um prolongamento, ficando “grudado” ao Edifício Zatti – na foto ao centro antes dessa interferência. Já o novo Café América passou a funcionar na Júlio defronte à Praça Dante.

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