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Memória28/06/2020 | 18h04Atualizada em 29/06/2020 | 09h27

Transviados caxienses do século 19, por João Spadari Adami

Relato destaca a algazarra protagonizada por um grupo de jovens na Avenida Júlio em 1890, a partir do furto de uma cesta de ovos

Transviados caxienses do século 19, por João Spadari Adami Domingos Mancuso,acervo pessoal de Renan Carlos Mancuso/Divulgação
Av. Júlio por volta de 1908: casas do trecho em frente à Praça Dante foram alvo de um grupo de "baderneiros" em 1890 Foto: Domingos Mancuso,acervo pessoal de Renan Carlos Mancuso / Divulgação

Pesquisador da história de Caxias do Sul, autor de vários livros, barbeiro, alfaiate, cronista da cidade e uma série de outras atribuições e ofícios fazem de João Spadari Adami (1897-1972) uma referência quando o assunto é o passado do município. Entre tantas colaborações em periódicos locais, destacamos hoje uma deliciosa histórica publicada na edição de agosto e setembro de 1962 do Boletim Eberle.

O relato “Transviados Caxienses do Século 19” trazia como subtítulo “Homenagem ‘al nonno’ José Benettti” e fazia um comparativo entre os então rebeldes e transviados daquele início dos anos 1960 com os “baderneiros” da Colônia Caxias do final do século 19. Confira abaixo parte do texto original. Na sequência de fotos, o texto original nas páginas do Boletim Eberle.

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No meu contínuo vasculhar do pas­sado caxiense, tenho encontrado documentos de assuntos interessan­tes. Alguns com certas propriedades humorísticas até, e que vale a pena torná-los conheci­dos do público, não como fatos his­tóricos, mas, sim, pelo espírito de boemia que caracterizava a gente caxiense daquele tempo. O assunto do presente trabalho é pitoresco e não atinge moralmente nem seus protagonistas, nem seus descendentes e nem à população da Pérola das Colônias.

No documento que motivou esta crônica são citados como autores de “distúrbios e desrespeito” aos bons costumes da então Vila de Santa Teresa de Caxias os menores Angelo Muratore, Máximo Sartori, Antônio CeoIa, Francisco Adami, Reinaldo Bergamaschi, José Benet­ti, Jerônimo Micheleto, Alberto Sartori e Antônio Manfro. E, como no citado documento não fosse especificada a categoria de delito que haviam eles cometido, resolvi perguntar ao quase nona­genário José Benetti, único sobrevi­vente dos citados então imberbes, que espécie de façanha haviam co­metido. 

A princípio, disse-me ele não ter participado de tal proeza. Porém, acabou por contar-me o seguinte fato: Que certa noite, lá pelo longínquo ano de 1890, estando ele em posição de “of side”, devido a uma cervejada que haviam tomado algures da Vila, ao passarem pelo mercadinho da imigrante Magdalena Brunetta, sito no arrabalde de São Pelegrino, subtraíram uma cesta de ovos de galinha, porém “fresquinhos da Silva”, que estava exposta à porta do mesmo. Se dirigiram ao centro da sede “Dante”, pois a vila era também assim denominada, e atiraram em fachadas de casas, e alguns dentro delas mesmo, aqueles derivados das penosas.

Os prédios mais atingidos foram os de Germano Parolini, hoje Casa Renner; Francisco Castagna, ho­je Caixa Econômica Federal; Ange­lo Chittolina, hoje Livraria Calca­gnotto; Antônio Lesso, vulgo Vero­na, por ser natural daquela cidade da Itália, hoje Loja Sibrama; Sal­vador Sartori, hoje Cine Central; Luiz Faccioli, hoje farmácia Santa Maria; e Café Garibaldi, hoje Edifício Galeria Auto João Muratore, em constru­ção. O Café Garibaldi, principalmen­te, ficou lambuzado de gemas e cla­ras de ovos, tanto na parte externa como internamente e com alguns vidros quebrados. Ninguém, porém, pode identifi­car aqueles “delinquentes” (segun­do são classificados no referido do­cumento), por ter sido aquela brin­cadeira de mau gosto levada a e­feito numa noite muito escura, não haver luz pública ainda em Caxias naquela época e ter sido uma molecagem relâmpago. Mas como, segundo o ditado, o “Diabo ensina a fazer a panela, mas não a tampa”, aconteceu que uma moça que parava na casa de Ger­mano Parolini, e que sendo namo­rada de Angelo Muratore e estava sendo trocada por ou­tra, sabendo ela quem foram os heróis da citada façanha, denun­ciou-os. Imediatamente, as autoridades competentes tomaram as providên­cias cabíveis e instauraram o res­pectivo processo contra os denomi­nados transviados. 

Esteve presente àquela audiên­cia o sr. João Muratore, pai de An­gelo e tronco dos Muratore de Ca­xias, o qual intercedeu em favor dos referidos denunciados, e disse que, de fato, os ditos meno­res haviam cometido tal falta, mas que não houve propriamente ofen­sa à moral de quem quer que fos­se. Apenas danos materiais e facilmente recuperáveis, e que por isso pedia às autoridades e aos pre­judicados com aquele ato pratica­do por seu filho e seus cúmplices que fossem punidos, sim, mas não com tanta  severidade. Ficou assentado de todos os delinquentes pagarem a quantia de dezesseis mil e duzentos réis e sofre­rem a pena correcional de duas horas de prisão. 

Foram reunidos, depois, na casa do Delegado de Polícia, cida­dão Benjamin Côrtes Rodrigues, sita a então Rua Silveira Martins, hoje Av. Júlio de Castilhos, para dali serem conduzidos ao xadrez, que ficava ali no local da hoje Igreja Metodista. E, quando estavam no ponto onde está hoje erigida a Es­tátua da Liberdade (por terem pre­viamente combinado), um dos refe­ridos transviados gritou: “Coraggio soldai che ascapon”. E numa corrida veloz, deixaram os dois policiais que os deviam conduzir ao xadrez, dirigi­ram-se ao mesmo xadrez e espera­ram que aqueles mantenedores da ordem pública os metessem nas grades. Porém, tiveram de esperar um bom pedaço de tempo, pois um deles era cego de um olho, e o outro, coxo de uma perna. 

Afi­nal, foram encarcerados e lá permaneceram pelo espaço de hora e meia. Não completaram as duas horas de cadeia, conforme haviam sido sentenciados, graças à intervenção do cidadão Rodolfo Felix Laner, que era, naquele tempo, “Fiel da Posta” da Vila. Laner os conduziu à sua residência, que ficava no lo­cal do hoje Centro Telefônico, por­tanto, próxima da cadeia, e os ob­sequiou com bons vinhos, salame e pão. O dito ágape entre aqueles transviados e o referido Cole­tor Federal Rodolfo Felix Laner durou até altas horas da noite daquele memorável dia. A maior parte dos réus não ti­nha, na ocasião da sentença, a res­pectiva parcela estipulada na con­denação, precisando ir buscá-la em casa. Tiveram, porém, que deixar os chapéus na delegacia, como ga­rantia que voltariam. Ali está uma interessante passa­gem dos mocinhos daquela época, que também, como hoje em dia su­cede, faziam-se de engraçadinhos, à semelhança dos transviados mo­dernos. (João Spadari Adami, agosto de 1962)

Foto: Reprodução
Foto: reprodução
Foto: reprodução
Foto: Reprodução

O cenário da traquinagem 

Na foto que abre a matéria, registrada por Domingos Mancuso em meados de 1908, vemos alguns dos prédios citados por João Spadari Adami em seu texto de 1962, reproduzido acima. Trata-se do trecho da Avenida Júlio de Castilhos (a antiga Silveira Martins) em frente à Praça Dante, com os negócios da família Sartori (posterior Cine Central, em primeiro plano) e a residência e Fábrica de Salame e Presunto de Angelo Chittolina (atual Super Andreazza). Entre os dois estão os casarões que cederam espaço ao Condomínio Galeria Auto João Muratore (o famoso Caixa de Fósforo) e à Galeria do Comércio, ligando a Júlio à Pinheiro Machado.

A Avenida Júlio esquina com a Dr. Montaury, aqui por volta de 1900, foi o cenário das arruaças do grupo de jovens em 1890. À esquerda, o antigo muro e a cerca da Praça DanteFoto: Giovanni Battista Serafini, Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / Divulgação

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