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Vida alterada23/05/2020 | 10h00Atualizada em 23/05/2020 | 10h00

Longe da família: marido e filha de Lidiane encontraram proteção a quase 300 quilômetros de Farroupilha

Profissionais da saúde que buscaram o isolamento contam como é enfrentar a solidão e os dilemas da pandemia

Longe da família: marido e filha de Lidiane encontraram proteção a quase 300 quilômetros de Farroupilha Arquivo pessoal/Divulgação
Lidiane é técnica em enfermagem e está distante da familia há 71 dias Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Além do risco do adoecimento por covid-19, profissionais da saúde têm abdicado da vida em família para viver um isolamento voluntário, às vezes obrigatório, numa tentativa de preservar pais, filhos e irmãos. São médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem que aprendem a conviver com a solidão e a lidar com sentimentos conflitantes. 

Não há uma estimativa de quantos moram atualmente em hotéis ou estão sozinhos em casa na Serra, mas esse número tenderá a crescer conforme a pandemia avançar. A sensação de que qualquer um pode ser a próxima vítima não afeta apenas as equipes da linha de frente na pandemia, mas também setores sem relação direta com a doença, uma vez que não existe uma área segura. O principal temor é contrair o vírus e contaminar um parente ou amigo.

Até sexta-feira (22), dos 126 casos confirmados de covid-19 somente em Caxias do Sul, 49 eram de pessoas que atuam na rede de saúde.  

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Nesta reportagem, três profissionais da saúde abrem seus corações para falar sobre essa rotina anormal. Confira a história de Lidiane:

"É obvio que valeu e seguirá valendo"

Das despedidas vividas por Lidiane Bonadeo Knob, 38 anos, a última e mais importante carrega a promessa de um reencontro para breve. Os laços com o marido Márcio José Knob, 40, e com a filha Manuela, seis, se desfizeram no dia 13 de março, uma sexta-feira. Pai e filha embarcaram num carro e deixaram Farroupilha para uma segura temporada de isolamento em Santa Maria, norte do Estado. Já são 22 sábados e domingos sem os passeios e almoços em família e outros 49 dias entediantes na semana sem a  filha pedindo ajuda para os temas da escola e os desabafos da vida em casal. Essa rotina faz uma falta danada, mas Lidiane considera ser a mais correta. Técnica em enfermagem na Unimed de Farroupilha, a profissional conhece de perto os efeitos da pandemia. É assustador para quem precisa cuidar dos pacientes da covid-19.

 — Tudo isso é real   —  salienta.

Lá atrás, em março, não havia argumentos favoráveis para manter a vida em família e o casal chegou a consenso de que o sofrimento seria pior se algum deles adoecesse. Márcio é portador de doença autoimune e se afastara preventivamente das funções na empresa onde trabalha. As aulas de Manuela também estavam para ser suspensas em Farroupilha. Lidiane, assim como todos os colegas, estava exposta ao contágio. As histórias que chegavam da Itália e de outros países eram assustadoras. A solução foi o afastamento. Agora, com mais pessoas infectadas, a ideia se consolidou. 

A técnica de enfermagem Lidiane Bonadeo Knob mora sozinha em Farroupilha para evitar o contágio de covid-19 do marido Márcio José Knob e da Manuela Bonadeo Knob (na foto).<!-- NICAID(14505374) -->
Márcio e Manuela estão no interior de Santa Maria com os pais de LidianeFoto: Arquivo pessoal / Divulgação

Márcio e a Manuela se mudaram temporariamente para a casa da mãe de Lidiane, no interior santa-mariense, a cerca de 300 quilômetros de Farroupilha. Eles estão bem devido ao isolamento e a menina tem adorado a companhia dos avós e a chance de ter mais espaço numa área rural. 

 —  Minha rotina é assim: trabalho e volto para casa. Tenho familiares na cidade, mas a gente tem contato somente online. Para matar a saudades, passo todo dia um tempo no quarto da minha filha. Conversamos muito por WhatsApp   —  conta Lidiane.

Quando inexiste empatia, essas decisões parecem simples, mas não são. Os três nunca haviam ficado tanto tempo separados. O domingo do Dia das Mães foi no silêncio de casa, mas a filha, com a ajuda do pai, fez questão de enviar flores _ encomenda feita por telefone, é claro. A técnica em enfermagem extrai o aspecto positivo. 

  —  O mundo inteiro está se adaptando com tudo isso. Nós, da área da saúde, temos que estar bem, para cuidar dos outros. Todos os hospitais tiveram que montar um novo atendimento para o covid-19. Aqui, fomos muito bem orientados, teve várias reuniões, muito teve que se aprender, que mudar. Vejo que há mais união entre os colegas também   —  avalia. 

Lidiane e Márcio analisam possibilidades de retorno, pois sabem que não dá para ser sempre assim. Mas não uma data definida e tudo é um dia após o outro.  

 —  Tenho a agradecer porque eles têm para onde ir, minha filha está adorando estar com os avós. Teve meios para isso, mas conheço situações que não têm alternativa.

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