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Vida alterada23/05/2020 | 09h00Atualizada em 23/05/2020 | 09h00

Longe da família: Aloir Júnior acredita que o esforço do distanciamento trará resultados

Profissionais da saúde que buscaram o isolamento contam como é enfrentar a solidão e os dilemas da pandemia

Longe da família: Aloir Júnior acredita que o esforço do distanciamento trará resultados Arquivo pessoal/Divulgação
Para preservar familiares, médico de 25 anos está hospedado em um hotel de Caxias do Sul Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

 Além do risco do adoecimento por covid-19, profissionais da saúde têm abdicado da vida em família para viver um isolamento voluntário, às vezes obrigatório, numa tentativa de preservar pais, filhos e irmãos. São médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem que aprendem a conviver com a solidão e a lidar com sentimentos conflitantes. 

Não há uma estimativa de quantos moram atualmente em hotéis ou estão sozinhos em casa na Serra, mas esse número tenderá a crescer conforme a pandemia avançar. A sensação de que qualquer um pode ser a próxima vítima não afeta apenas as equipes da linha de frente na pandemia, mas também setores sem relação direta com a doença, uma vez que não existe uma área segura. O principal temor é contrair o vírus e contaminar um parente ou amigo.

 Até sexta-feira (22), dos 126 casos confirmados de covid-19 somente em Caxias do Sul, 49 eram de pessoas que atuam na rede de saúde.  

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Nesta reportagem, três profissionais da saúde abrem seus corações para falar sobre essa rotina anormal. Confira a história de Aloir Júnior:

"É obvio que valeu e seguirá valendo"

Três convicções acompanham o médico Aloir Neri de Oliveira Júnior, 25 anos. A primeira é de que o distanciamento social foi fundamental para dar fôlego ao sistema de saúde na preparação contra o coronavírus em Caxias. A segunda constatação é de que aquele período em que quase toda cidade permaneceu três semanas em casa, muito menos vítimas de acidente de trânsito e da violência precisaram de atendimento no pronto-socorro do Hospital Pompéia, onde atua como residente de Ortopedia e Traumatologia. A terceira certeza espelha um senso de coletividade. Aloir se isolou num quarto do Personal Royal Hotel porque sabe que pode contrair o vírus no exercício da profissão e prejudicar a saúde dos pais.

Durante seis anos, Aloir Júnior residiu sozinho em Tubarão (SC), onde cursava Medicina. Ao retornar para Caxias do Sul no ano passado para a residência do segundo de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Pompéia, voltou a conviver com os pais. Era um novo recomeço. 

— Me acostumei morar em casa e agora tive que reaprender a ficar longe de casa, sem poder voltar — lamenta o médico.

Ele é um dos poucos profissionais de Caxias do Sul que buscou refúgio na rede hoteleira. Já são quase dois meses como hóspede. O custo das diárias é menor do que o valor habitual. Sozinho no quarto, consegue não só manter distância da família, mas também acaba dentro de um esquema de prevenção mais rígido do hotel, o que não seria possível na residência paterna. Aloir é o caçula de uma família de fortes ligações com a Medicina. O pai, Aloir Neri de Oliveira, 67, obteve reconhecimento como ortopedista na cidade e com forte atuação no meio esportivo. As irmãs Mayara e Thairine também seguiram carreira em especialidades diferentes. A mãe, Maria Lucia Triches dos Reis Oliveira, 58, é professora de Educação Física. 

— Desde que iniciou toda essa história da pandemia, que inicialmente nem era considerada pandemia, eu acompanhava nos noticiários o caos na China. Não dava muita bola, achava que poderia até chegar no Brasil, mas acaba minimizando a história toda. Aí, quando estourou de verdade aqui, percebei o problema — lembra Aloir Júnior.

No início, o rapaz ficava trancado no quarto, de onde só saía para refeições e conversas rápidas com os pais. Mesmo usando máscara, tornou-se complicado conviver num mesmo ambiente. A mãe tem pressão alta e o pai é cardiopata. Além disso, uma das irmãs é gestante. Aloir Júnior poderia trazer o vírus do hospital e causar um estrago na família. 

— Sentamos, conversamos e o melhor foi ir para um hotel. Definimos que teríamos um contato esporádico. A gente mata a saudade do jeito que dá, se encontra no pátio de casa, com todo mundo de máscara, com a distância correta, por videoconferência, por WhatsApp...

O médico é defensor dessa distância, pois considera que ainda é a melhor arma contra a covid-19. Cita a significativa a redução de jovens que deixaram de recorrer ao hospital por questão de acidentes ou até mesmo por ferimentos causados em brigas banais em bares. Por outro lado, compreende que um retorno à normalidade precisa ocorrer, sendo que cada pessoa não é uma ilha e precisa fazer a sua parte. A circulação maior de pessoas, aliás, já vem sendo notada nos plantões da traumatologia, com mais casos de acidentados.

—  Quer queira ou não, a covid-1i é uma doença desconhecida, invisível e não tem conhecimento suficiente para enfrentar. Acho que, no mês de abril, foi muito legal a mobilização da população e ver todo mundo de quarentena e isso teve seu efeito muito positivo. Não cabe perguntar se valeu a pena se manter afastado. É obvio que valeu e seguirá valendo — conclui Aloir Júnior.

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