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Memória16/05/2020 | 07h00Atualizada em 16/05/2020 | 07h00

Anos 1950: nos tempos do footing pela Praça Dante

Os passeios a pé pelos arredores da praça se consolidaram em programa obrigatório para milhares de caxienses naqueles tempos

Anos 1950: nos tempos do footing pela Praça Dante Reno Mancuso,acervo pessoal Renan Carlos Mancuso/Divulgação
Em 1952: trecho da Júlio defronte a então Praça Rui Barbosa era cenário de flertes e namoros à distância Foto: Reno Mancuso,acervo pessoal Renan Carlos Mancuso / Divulgação

Para muitos jovens das décadas de 1940, 1950 e 1960, a melhor parte da obrigatória missa matutina de domingo na Catedral Diocesana era quando ela… acabava. A bênção final significava o início da paquera na Praça Dante Alighieri, quando as famílias dispersavam.

O footing (passeio a pé) pelos arredores da praça consolidou-se em programa obrigatório para milhares de caxienses naqueles tempos – tanto que foi recordado no livro Anedotário da Praça Dante, seleção de relatos curiosos organizada pela jornalista Suelen Spido Mapelli.

O jornalista Maico Vogel, autor do texto Quem se Lembra do Footing?, detalhou o pré-ritual:

"A maioria saía de casa a pé até a Catedral. Não eram raros os momentos em que os pais sempre reclamavam que as filhas demoravam muito para se arrumar. Afinal, todos estavam indo à missa, não a um casamento. Mas para elas, a ocasião merecia um cuidado especial".

LINGUAGEM DOS OLHOS 

No livro Cinema: Lembranças…, as professoras Kenia Pozenato e Loraine Slomp Giron também definiram esse hábito, que perduraria até meados dos anos 1960 – quando os cinemas de rua e o burburinho urbano começaram a sofrer com a concorrência da televisão.

"Era chamado de footing o passeio das jovens casadoiras, de um lado a outro, enquanto os rapazes ficavam parados, flertando ou dando uma linha, como eram definidos os olhares trocados entre moços e moças – revelando ou não o interesse. Essa espécie de desfile era uma forma de namoro à distância, na qual era usada a linguagem dos olhos".

Ainda conforme as autoras, após a missa e o footing, os jovens podiam dirigir-se ao campo do Sport Club Juventude para assistir a uma partida de futebol ou conferir as matinés dos cinemas Guarany, Ópera e Central. Programas que, indiretamente ou não, contribuíram para selar alguns romances que perduram até hoje...

Parte das informações desta página foi publicada originalmente na coluna de 18 de março de 2015.

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Em 1950: Aldo Batastini, Romeu Rossi, Laurindo Rech, Romeu Rasia e Ivo Jaconi passeando pela Avenida Júlio de Castilhos durante o footig de domingo.<!-- NICAID(14500836) -->
Em 1950: Aldo Batastini, Romeu Rossi, Laurindo Rech, Romeu Rasia e Ivo Jaconi passeando pela JúlioFoto: acervo pessoal de Romeu Rossi / divulgação

Lembranças de seu Romeu Rossi

Seu Romeu Rossi, 89 anos, era assíduo frequentador do footing de domingo. Hoje aposentado do Banco do Brasil, o jovem solteiro costumava “circular” pela praça com os amigos de todo final de semana, conforme vemos na imagem ao lado. Estão ali Aldo Batastini, o jovem Romeu, Laurindo Rech, Romeu Rasia e Ivo Jaconi. Ele recorda daqueles tempos com detalhes: 

– No sábado à noite, era Cinema Guarany e festas em salões de igrejas, muito concorridas. No domingo de manhã, missa das nove na Catedral e depois o footing em frente ao Cine Central, indo da Farmácia Central até a esquina da Rua Dr. Montaury. Todas as moças e rapazes solteiros da cidade. Ao meio-dia, geralmente, um fazia um churrasco ou almoçávamos num restaurante. À tarde, todos tinham bicicleta, e pedalávamos por Caxias. Raramente íamos a futebol. À noite, era sempre cinema – lembra seu Romeu, que até hoje mora em frente à praça, no Edifício Solaris, na esquina da Avenida Júlio de Castilhos com a Rua Dr. Montaury.

Romeu Rossi e dois amigos durante o clássico footing de domingo, no início dos anos 1950.<!-- NICAID(14500837) -->
Romeu Rossi e dois amigos durante o clássico footing de domingo, no início dos anos 1950Foto: acervo pessoal de Romeu Rossi / divulgação

Modismo

Os passeios no trecho da Júlio entre a a Dr. Montaury e a Marquês do Herval, defronte à Praça, também repetiam um modismo verificado na tradicional Rua da Praia, em Porto Alegre – com lambe-lambes e fotógrafos de plantão oferecendo um registro dos jovens e suas famílias e do movimento no Centro.

Av. Júlio de Castilhos em agosto de 1952: o jovem Nelson Sbabo e colegas da turma de ginásio, defronte a então Praça Ruy Barbosa <!-- NICAID(14500834) -->
Av. Júlio em agosto de 1952: o jovem Nelson Sbabo e colegas da turma de ginásio, defronte à praça Foto: Acervo pessoal de Nelson Sbabo / Divulgação
Relax na praça: os amigos Carlos de Oliveira Dias e José Tessari em finais dos anos 1940, quando os bancos de concreto ainda dominavam o entorno da Dante.<!-- NICAID(14500835) -->
Relax na praça: os amigos Carlos de Oliveira Dias e José Tessari em 1949 Foto: acervo pessoal de Aires Lopes de Oliveira / Divulgação
Ele chegou em Caxias em 15 de janeiro de 1950, dia do aniversário. Na manhã seguinte, começou a trabalhar na antiga Industrial Madeireira, onde por anos acompanhou de perto a saída de centenas de caminhões de madeira que auxiliariam na reconstrução da Europa do pós-guerra. E até hoje descreve, com riqueza de detalhes, o processo de fabricação dos móveis da empresa, cujas portas curvas fizeram história no design da Serra e nos lares.Falamos de seu Gervis Damian, que nesta sexta celebra 90 anos. A comemoração será em família, ao redor da esposa, Julia, dos cinco filhos, dos quatro netos e dos cinco bisnetos. Toda essa história remete a 1926, quando nascia em Rio do Cedro, sul de Santa Catarina, o quinto de uma prole de oito irmãos, três homens e cinco mulheres. Filho homem mais novo do casal João Damian e Dozolina Vetorazzi Damian, seu Gervis nunca soube informar de onde a mãe tirou um nome tão diferente, mas lembra que, quando tinha 14 anos, uma grande seca se abateu sobre a região de Rio do Cedro. A solução para as famílias era buscar algum recurso fora. Com o irmão mais velho, partiu para Criciúma, a fim de trabalhar nas minas de carvão. Pouco tempo depois, ambos voltaram para ajudar na colheita das terras da família. Foi quando seu Gervis arranjou um novo emprego como marceneiro, aos 16 anos. Graças a esse aprendizado, recebeu um convite para trabalhar numa fábrica de móveis de Canela, onde chegou com apenas 21 anos, em 1947. Na praça da cidade serrana, ele conheceu a jovem Julia, que tinha ido com um grupo de amigas caxienses passar um final de semana na Região das Hortênsias. Conversaram e só voltaram a se encontrar durante um passeio de roda gigante durante a Festa da Uva de 1950. E, lógico, toda essa história deu em casamento. A união veio sete anos depois, em 1957. Em 2017, portanto, teremos mais uma comemoração: as bodas de diamante de Gervis e Julia.Na foto, Gervis Damian e um amigo na Praça Dante Alighieri nos anos 1950. Nos anos 1950, seu Gervis acompanhou a rotina e os programas obrigatórios da população na área central, como os passeios de final de semana no entorno da Praça Dante Aliguieri (o famoso footing dominical). Apaixonado por motores, adquiriu também uma moto NSU alemã, 250 cilindradas, integrando-se ao grupo de motociclistas locais.<!-- NICAID(11947537) -->
Footing dominical: Gervis Damian e um amigo durante um passeioFoto: Acervo de família / divulgação

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