Profissionais da saúde lutam para não engrossar lista de vítimas do coronavírus em Caxias e região - Geral - Pioneiro

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Exposição x prevenção03/04/2020 | 21h53Atualizada em 03/04/2020 | 22h06

Profissionais da saúde lutam para não engrossar lista de vítimas do coronavírus em Caxias e região

Médicos, enfermeiros e técnicos representam 39% do total de casos confirmados em Caxias do Sul e Bento Gonçalves

Profissionais da saúde lutam para não engrossar lista de vítimas do coronavírus em Caxias e região Antonio Valiente/Agencia RBS
Francine Ribeiro Domingos (assistente de atendimento), Thalita Dillenburg dos Santos (mensageira) e Ketlin Ritter e Silva (assistente de atendimento) estão na linha de frente do hospital de campanha da Unimed Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Os profissionais da saúde vivem dias de muita pressão e lutam para não adoecer na difícil batalha que se aproxima contra a pandemia. Dos 28 casos confirmados de coronavírus até agora em cidades como Caxias do Sul e Bento Gonçalves, 11 são de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, ou, 39% do total. A maioria contraiu o vírus em contato com pacientes ou colegas. Um médico continuava hospitalizado até a tarde desta sexta-feira (3), mas o contágio aconteceu fora do expediente de trabalho.

>> Leia domingo: como a rede pública tenta prevenir casos entre os servidores municipais da saúde

O número elevado de casos positivos em relação aos pacientes em geral ocorre porque os testes estão sendo priorizados entre as equipes que atuam nos hospitais, nas clínicas e nos postos de saúde, o que facilita a identificação do nível de contágio nesse segmento. Entretanto, evidencia a exposição desses profissionais, o que requer uma estratégia eficaz para impedir que não se repita na Serra o que vem acontecendo na Espanha, onde 12% dos diagnósticos de coronavírus são de médicos, enfermeiros e motoristas de ambulâncias, e na Itália, que já tinha 77 médicos mortos pela doença até a tarde de sexta-feira, conforme a Federação Nacional da Ordem dos Médicos daquele país. 

Em São Paulo, mais de 600 funcionários de hospitais já foram afastados do trabalho por causa do coronavírus. 

Com muitos profissionais retirados da linha de frente, qualquer sistema terá sua capacidade de enfrentamento comprometida. Em Caxias do Sul e Bento Gonçalves, cidades mais afetadas pelo coronavírus na região, o afastamento é uma realidade na rede hospitalar. Questionados pela reportagem, os hospitais Pompéia, Virvi Ramos e Geral, de Caxias, e o Tacchini, de Bento Gonçalves e que também responde pelo São Roque, de Carlos Barbosa, informaram ter 152 profissionais isolados por suspeitas de covid-19 ou por apresentarem sintomas gripais, o que corresponde a 3% do total de 4.965 funcionários. As demais instituições privadas de saúde de Caxias do Sul não divulgaram o quadro atualizado até o fechamento desta edição.

Na rede pública de Caxias do Sul, são 98 profissionais afastados por atestado e por se enquadrarem no grupo de risco como gestantes, hipertensos e idosos. Um médico testou positivo para a covid-19 e está isolado. Em Bento Gonçalves, houve afastamento de 34 servidores por suspeita, mas nenhum caso confirmado até o momento. Em Farroupilha, o Hospital São Carlos não tem registro de profissionais com suspeita ou confirmação de covid-19, mas a Secretaria Municipal da Saúde informou que há 12 pessoas que atuam na rede privada em quarentena por suspeita da doença. 

Controle dos EPIs assusta profissionais

Assim como o resto do país, a escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs) causa temor pelo risco de adoecimento das equipes de saúde. Os estoques disponíveis, de certa forma, garantiriam o desempenho das atividades com segurança por algumas semanas. Mas o sistema estaria seriamente ameaçado diante de um descontrole de casos. 

Há duas visões distintas sobre o problema: os sindicatos dos trabalhadores alertam para a necessidade de reforçar os cuidados e denunciam que os profissionais estão tendo dificuldades para acessar os EPIs. Os hospitais garantem que há regulação, sim, de material, mas com o propósito de garantir o uso responsável e adequado dos equipamentos por meio de regras baseadas em protocolos de prevenção recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo Ministério da Saúde e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Nos últimos dias, o SindiSaúde, que representa 14 mil trabalhadores em 27 municípios da Serra, com exceção dos enfermeiros e médicos, notificou 33 hospitais para que disponibilizem EPIs, façam acompanhamento psicológico, garantam a higienização das vestimentas dentro dos hospitais e façam o afastamento do grupo de risco. A entidade ingressou com uma ação na Justiça para garantir os pedidos. Em Caxias, são cerca de 7 mil profissionais entre técnicos de enfermagem, auxiliares de enfermagem, higienizadores e copeiros, entre outros.

- Antes de buscar a intermediação da Justiça, elaboramos acordo, no dia 19 de março, e encaminhamos para os sindicatos patronais para pedir o afastamento do grupo de risco, gestantes, alguns não aceitaram - diz o secretário-geral do SindiSaúde, Danilo Gonçalves Teixeira.

- Os trabalhadores relatam que as casas estão racionalizando EPIs porque o maior pico seria no final de abril, início de maio. Fizemos acordo com alguns hospitais e aguardamos a manifestação dos demais nos próximos dias. Ou o empregador começa a se conscientizar ou vai haver afastamento por causa do contágio, não vai ter mão de obra. É uma situação grave - complementa a presidente do SindiSaúde, Bernardete Giacomini.

O Sindicato dos Médicos não tem registrado queixas sobre a falta de EPIs ou cuidados na prevenção em hospitais. Segundo a entidade, seriam cerca de 200 profissionais na linha de frente num universo de 1,2 mil médicos na cidade.

- Nos seis hospitais, temos relatos de que não tem falta de abastecimento - diz Marlonei dos Santos, presidente do sindicato. 

Em outra frente, o Sindicato dos Enfermeiros do Rio Grande do Sul tem ingressado com liminares para garantir a distribuição de EPIs. Na visão da presidente da entidade, Claudia Ribeiro da Cunha Franco, alguns gestores da saúde interpretam a orientação da Anvisa e do Ministério da Saúde da forma que lhes convêm.

- Há a questão do afastamento do grupo de risco, acham que afastar é colocar no administrativo, mas o Ministério da Saúde fala que tem de ficar em casa.  Existem denúncias de que hospitais orientam a não usar máscara no corredor, só quando for falar com paciente, porque pelo contrário assustaria o pessoal. A estimativa extraoficial é que 11% dos profissionais de saúde têm suspeita de coronavírus. Temos 125 mil enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem no Rio Grande do Sul. Se tu pensares em 11%, dá um desespero - comenta Cláudia.

Sindicato patronal garante que não faltarão estoques

Cleciane Simsen, presidente do Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde da Região Nordeste, esclarece que é preciso considerar diversas situações forçadas pela pandemia. Entre elas, a aquisição exagerada de máscaras por parte da população em geral, o que os sindicatos dos trabalhadores concordam.

- As máscaras cirúrgicas nunca foram artigo controlado em hospital, mas de repente esse material sumiu. Agora, está difícil conseguir e aumentou o preço. Mas todos os hospitais estão com estoque para atender o quadro atual. Os profissionais estão recebendo. Só faltará se houver um descontrole de casos (de covid-19) e há um esforço da CIC, do município e outros setores para produzir e fornecer esses equipamentos - pondera Cleciane.

A executiva diz que a restrição não está relacionada ao fornecimento, mas, sim, para garantir o uso adequado. Cleciane lembra que o contágio ocorre na forma de aerossol, isto é, por gotículas de saliva, espirros e tosse. Como pacientes desse perfil são tratados em áreas separadas, são os profissionais que farão esse contato, da chamada linha de frente, que terão mais disponibilidade de EPIs. Por outro lado, não haveria motivo para que um colega de um setor como um posto de enfermagem usasse o mesmo paramento.

- Todos os dirigentes tem esse olhar, essa preocupação com o colaborador. Os hospitais criaram protocolos semelhantes, uma precaução padrão. Não faltarão insumos se os casos forem surgindo de forma espaçada - conclui Cleciane.

Ação nos hospitais

Os hospitais afirmam que têm distribuídos EPIs e realizado o afastamento dos funcionários do grupo de risco. O Hospital Tacchini, por exemplo, colocou 101 colaboradores em casa nas últimas duas semanas. A maioria está trabalhando da própria residência. A intenção é diminuir o risco e reduzir a circulação de pessoas na unidade de Bento e no São Roque, em Carlos Barbosa. O Pompéia também reduziu o quadro interno concedendo férias e afastando o grupo de risco. No momento, são 16 colaboradores isolados em casa por suspeita de covid-19.

- Hoje tem EPI suficiente para atender a demanda. Temos reforçado o treinamento, capacitação, disponibilizado vídeos na áreas comuns de acesso. Não intensificamos lavagem de mão, pois é do DNA do hospital esse processo claro de higienização. Aumentou, sim, o uso de EPIs no momento em que se maneja com o paciente - diz a diretora assistencial do Pompéia, Lara Sales Vieira.

O Círculo segue a mesma linha das outras instituições, com treinamento obrigatório de paramentação e desparamentação dos profissionais, reorganização de fluxos de pacientes da estrutura interna do hospital para evitar o contato de áreas possivelmente contaminadas com áreas limpas e fiscalização do cumprimento das medidas por parte dos profissionais expostos.

- Mas o mais importante é ter EPI e treinamento adequado para o uso. É a principal forma de proteção - ressalta o médico Tiago Perinetto, integrante da coordenação de emergência do Hospital do Círculo.

A Unimed estabeleceu diversas regras para o controle da infecção. Os pacientes com sintomas têm sido atendidos numa área no lado externo do hospital por profissionais protegidos. 

- Quando eu peguei (o vírus) ainda não existia contaminação comunitária. Agora é diferente. É necessário que todos se protejam e por isso o cuidado deve ser intenso. Temos suprimentos necessários. Existem níveis diferentes de EPIs para diferentes procedimentos - diz o diretor técnico do Complexo Hospitalar Unimed, Vinícius Lain, que está em isolamento e será considerado curado a partir de segunda-feira.

Lain estava à frente da organização do hospital para enfrentar a pandemia e usa o próprio caso para recomendar à população que evite os hospitais neste momento e adote as regras de afastamento e higienização como forma de preservar a si mesmo e os profissionais da saúde.

Com 22 funcionários afastados por síndrome gripal e outros quatro por terem tido contato com possíveis portadores de covid-19 ou ambientes contaminados, o Hospital Geral tem viabilizado ações para tranquilizar o quadro funcional. Um exemplo é o desenvolvimento de ginástica laboral e técnicas de relaxamento e atendimento da psicologia do hospital. A instituição investiu na aquisição de testes rápidos que serão feitos nos profissionais que apresentarem o conjunto de sintomas de síndrome gripal, que indicam suspeita de coronavírus.

Prefeitura de Caxias recebeu poucos EPIS nesta sexta-feira<!-- NICAID(14468951) -->
Estado encaminhou material para Caxias do Sul, mas a quantidade é pouca diante do tamanho da populaçãoFoto: Andréia Copini / divulgação

"Temos medo de levar o vírus para casa" 

Treinados para situações complexas em urgências e emergências, os profissionais da saúde vivenciam uma sensação ainda mais difícil por estarem agora num terreno desconhecido. Todos temem contrair o vírus, todos sabem que podem levar a doença para casa ou transmitir para colegas. Ao mesmo tempo, têm consciência de que a população depende de seus esforços numa eventual pandemia na Serra.

- É um peso que nunca havia sentido antes, é muita pressão. Estamos muitos pressionados, temos medo de levar o vírus para casa. Meus colegas choram - relata uma técnica em enfermagem, que pede o anonimato. 

A mãe da trabalhadora está de quarentena em casa por suspeita de covid-19. O médico recomendou o isolamento para os demais familiares, o que inclui a técnica de enfermagem. Contudo, apesar o atestado e do termo de isolamento domiciliar, a profissional encontrou resistência do gestor para liberá-la do trabalho. 

- Se descumprir o termo, vou ser responsabilizada. Mas disseram que tenho de trabalhar e que somente minha mãe tinha que estar isolada. Meus colegas ficaram com medo de chegar perto de mim, estão assustados porque acham que posso ter passado o vírus. É por isso que muitos querem ter máscaras, aventais. Não sabemos o que pode acontecer - desabafa a técnica, que buscou orientação do sindicato e aguardava uma definição do seu caso.

O suporte psicológico é uma das exigências do SindiSaúde para prevenir o adoecimento dos profissionais da rede privada. Na rede pública, a saúde dos servidores é monitorada pelo Sindicato dos Servidores Municipais (Sindiserv). Há uma tensão grande no setor, pois ninguém sabe se os EPIs são suficientes. Na sexta-feira, a prefeitura recebeu equipamentos do governo do Estado, mas o titular da Secretaria Municipal da Saúde, Jorge Olavo Hahn Castro, considerou a quantidade muito pequena em relação ao número de habitantes: são 40 aventais, 100 máscaras cirúrgicas e 600 pares de luvas.

O Ministério da Saúde repassou 40 milhões de EPIs pra todo o país, sendo que o Rio Grande do Sul recebeu 1,8 milhão de unidades. Parece muito, mas não é. Sete hospitais da Serra ganharam parte desse material, a maioria descartável. Um hospital teve acesso a 70 aventais, sendo que usa 150 todos os dias. Por mês, a mesma instituição consome 20 mil máscaras cirúrgicas e ganhou apenas 8 mil unidades. 

- Estamos cobrando os EPIs e a prefeitura tem fornecido máscaras cirúrgicas e álcool gel, alguns kits de procedimentos com máscaras N95, avental, touca e protetor facial. O material está escasso, então as remessas são pequenas para cada unidade o que preocupa os servidores - observa Karina Luiza dos Santos de Paula, diretora de Saúde do Sindiserv.

NO ESTADO

:: Nas 18 maiores cidades do Rio Grande do Sul, são 1.537 trabalhadores da área da saúde afastados por consequências da pandemia, segundo levantamento de GaúchaZH na quarta-feira, dia 1º, e quinta-feira, dia 2. Deste total, 40 já testaram positivo para covid-19 e 669 apresentam sintomas de gripe ou pneumonia.


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