Gripe Espanhola de 1918: relatos das famílias Rovea, Peretti e Rosa - Geral - Pioneiro

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Memória02/04/2020 | 07h00Atualizada em 02/04/2020 | 08h55

Gripe Espanhola de 1918: relatos das famílias Rovea, Peretti e Rosa

Lembranças integram gravações feitas ao Banco de Memória Oral do Arquivo Histórico por descendentes e familiares de vítimas

Gripe Espanhola de 1918: relatos das famílias Rovea, Peretti e Rosa Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami/divulgação
Casamento de João Domingos Peretti e Angelina Rovea, filha de Vicente Rovea, em 20 de dezembro de 1916, em frente ao prédio Foto: Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / divulgação

Além dos jornais da época, outra fonte preciosa para se entender a epidemia de gripe espanhola que se alastrou por Caxias e região a partir de 1918 é o Banco de Memória do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami. Estão lá, gravados e transcritos, vários depoimentos de descendentes de vítimas da “influenza hespanhola” - grafia corrente nos antigos periódicos “Cittá di Caxias” e “O Brazil”, editados na época. Entre eles está o relato do senhor Vasco Peretti, filho de João Domingos Peretti e Angelina Rovea, coletado em 18 de agosto de 1999 pelas servidoras municipais Elenira Prux e Maria Beatriz Gil da Silva. 

A saber: em 1918, dois anos após o casamento com João Domingos, Angelina faleceu em decorrência da gripe. A jovem era a filha caçula de Vicente e Bortolina Rovea, donos da lendária casa de comércio e secos & molhados localizada na Avenida Júlio esquina com a Rua Humberto de Campos, em Lourdes. Vasco, neto de Vicente e Bortolina, nasceu em 1º de outubro de 1917:

“A mamãe faleceu eu tinha 14 meses, mas antes disso, com sete meses, eu devo ter ido na casa dos meus avós, porém, certeza eu só tenho depois dos quatorze meses, porque a mamãe estava grávida quando faleceu da espanhola. Mulher que estivesse grávida, a espanhola, que era uma gripe forte, matava, não tinha como. Não se sabe por que, complicava de tal maneira (...). Ela devia ter vinte e poucos anos, porque ela casou em 1916, faleceu dois anos depois, não ficou nem dois anos casada. Eu tinha quatorze meses, ela estava grávida de outro. E, quando eu falo da gravidez dela, sempre tenho uma impressão íntima que fosse uma menina. [choro] Não sei por que”.  

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Seu Vasco também recordou da morte da mãe por gripe espanhola em uma entrevista coletada em 17 de julho de 1986 pelo historiador Juventino Dal Bó e pela professora Pavlova Katherine Segalla:

“(...) Eu tenho lá em casa os anúncios do noivado dela em 1916, no Correio do Povo. E eu nasci em outubro de 1917, e ela faleceu em dezembro, se eu não me engano dia 2 de dezembro de 1918. Estava grávida de um outro, ou outra. Morreu ainda grávida”.  

Na imagem acima, o registro do casamento de Angelina Rovea com João Domingos Peretti no ano de 1916, em frente à antiga casa de comércio dos pais, Vicente e Bortolina Rovea, atual sede do Arquivo Histórico Municipal – onde essa e milhares de outras histórias estão resguardadas... 

Vicente e Bortolina Rovea com as filhas Rosina e Angelina, defrente à antiga Casa de Negócio de Vicente Rovea, atual sede do Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul.<!-- NICAID(10312086) -->
Angelina Rovea (à esquerda) com os pais Vicente e Bortolina e a irmã Rosina na entrada do comércio por volta de 1908Foto: acervo pessoal de Cléver Moreira / divulgação
Angelina Rovea em 1914, quando foi rainha do Clube Juvenil<!-- NICAID(14466409) -->
Angelina Rovea em 1914, quando foi rainha do Clube JuvenilFoto: Fotos Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami / Divulgação

Lembranças de dona Adelaide Rosa

Entrevistada em 20 de junho de 1985 por Tania Zardo Tonet e Edma Ribeiro Pacheco, a senhora Adelaide Rosa recordou da epidemia de gripe espanhola de 1918, em Caxias. A conversa também integra o Banco de Memória do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami:

“(...) E depois o que atrapalhou toda a nossa vida ali naquela casa foi quando morreu meu irmão numa epidemia, né, em 1918. Ali então foi uma, um baque, né? Meu pai ficou muito nervoso, foi uma época que morreu muita gente aqui em Caxias daquele epidemia. E na nossa casa estavam todos doentes, não tinha um de pé pra ajudar a cuidar dos doentes, até a nossa empregada tava doente”. 

Sobre o irmão Olímpio (Olimpinho), Adelaide recordou:

“Eu fiquei sendo filha única porque os outros irmãos todos morreram pequenos. Minha mãe teve cinco filhos, todos eles morreram e fiquei só eu. O último que morreu foi o Olimpinho, morreu na espanhola. Na época da espanhola era um menino de treze anos. Foi muito triste o caso dele porque era a primeira vítima da espanhola aqui em Caxias, e as autoridades achavam que evitando toda e qualquer contato com ele, que evitava epidemia na cidade. Não foi assim não, ele foi o primeiro que morreu, porque me parece que morreram quatorze senhoras aqui na cidade com a epidemia. Então diz que pegavam só essas pessoas que já tinham qualquer mal, uma doença, né… ele era um menino muito forte, ele morreu. Diziam que era tifo preto, mas não foi tifo preto, foi a espanhola. Aquilo foi uma epidemia terrível. A cidade parou completamente, todos os negócio fechado, tudo fechado, tudo parado.”

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