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Educação 15/04/2020 | 12h24Atualizada em 15/04/2020 | 12h34

Especialistas avaliam processo de alfabetização de crianças em Caxias com cancelamento das aulas

Pais devem estimular os pequenos a escrever e ler durante isolamento social 

Especialistas avaliam processo de alfabetização de crianças em Caxias com cancelamento das aulas Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Leonardo está no primeiro ano do ensino fundamental e conta com a ajuda da mãe e da mana para aprender a escrever Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

A pandemia do novo coronavírus provoca uma situação sem precedentes em diversos segmentos da sociedade. Um dos mais afetados é a educação. O efeito da suspensão das aulas devido à covid-19 pode ser sentido de forma diferente entre os níveis de ensino em Caxias do Sul. A orientação em diversas escolas e faculdades é o uso das tecnologias para ensino e aprendizagem. Contudo, as aulas à distância e plataformas digitais são ferramentas mais usadas quando se trata de ensino superior. Na educação básica, o cenário é diferente. A fase de alfabetização, por exemplo, é vista como uma das mais difíceis de se transpor para o ambiente virtual.

De acordo com especialistas, o período para se alfabetizar pode começar tanto aos quatro quanto aos sete anos. Cada criança tem o seu próprio ritmo. O processo passa por quatro diferentes fases: pré-silábica, silábica, silábica-alfabética e alfabética. Ao passar por cada etapa, a criança constrói a escrita e passa a perceber que a palavra é composta por letras e símbolos, e quando as sílabas são unidas ganham um significado.  

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A suspensão das aulas têm deixado não só as famílias, mas também os professores angustiados e aflitos pela descontinuidade do processo do ano letivo:

— Há uma preocupação com a alfabetização porque é na escola que acontece o processo sistematizado de intervenções e atividades didáticas pedagógicas intencionais e pensadas em alfabetizar — ressalta a especialista em Gestão Educacional e mestre em Formação de Professores Flávia Fernanda Costa.

Ela explica que a metodologia de ensino pressupõe uma concepção que conduz a atividade do professor para estimular o desenvolvimento e o avanço dos alunos:

— O contato com o professor a partir de uma dinâmica pedagógica embasada em pressupostos é essencial ao aprendizado. Nada substitui isso, mesmo que a criança tenha pais com boa vontade e que eles sejam bem orientados, o professor está qualificado para fazer as intervenções adequadas ao momento e as hipóteses de escrita em que cada aluno se encontra. Ele sabe respeitar a idade e a fase em que o aluno está no aprendizado.

Fláva, que também coordena o Centro de Inovação e de Tecnologias Educacionais (Cinted) da UCS, complementa:

— O trabalho do professor vem embasado em teoria e carregado de intencionalidade didática para alfabetizar, e ensinar a ler e escrever é um processo diferente dos demais ensinos.

Para Flávia, o retorno a normalidade será um desafio aos professores, porque será necessário desenvolver um diagnóstico da situação das crianças:

— Vamos encontrar situações adversas, desde crianças que foram estimuladas pela família e que tiveram acesso à plataformas digitais e recursos de aprendizagem até aquelas crianças que ficaram totalmente distantes dos estímulos, das ferramentas e do processo de alfabetização. Temos de aguardar o retorno e diagnosticar a situação para reprogramar as atividades das crianças.

A pedagoga Natália Peretti concorda que o ensino à distância é desafiador e não substitui a presença do professor, que é essencial no aprendizado:

— O período de alfabetização requer muita dedicação e paciência, é um processo longo e que o aluno deve estar em constante incentivo. Dentro da sala de aula se torna mais fácil e eficaz, por se tratar do incentivo por parte do professor, mas também e, principalmente, por parte dos outros colegas. Alfabetizar à distância é mais complicado, pois mesmo que o professor prepare uma aula bem legal para o aluno, como eles são muito pequenos ainda, os pais têm de ajudar e incentivar a aprendizagem.

"Nada substitui o professor" diz secretária de Educação

Na rede municipal de ensino, 10.470 estudante fazem parte do ciclo de alfabetização em Caxias do Sul. A secretária de Educação, Flávia Vergani, lembra que o município optou pela recuperação presencial das aulas, principalmente levando em conta a realidade de crianças que não teriam acesso às tecnologias necessárias para seguir com as atividades fora da escola.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 14/04/2020 - Estimulado pela mãe, Merielen Felippi Brehm, 34 anos e pela irmã Isabelle Felippi Brehm, 9 anos, Leonardo Felippi Brehm, 6 anos já sabe ler e escrever seu nome. Durante o período de distanciamento social, eles se revezam entre brincadeiras, desenhos e leituras. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14476590) -->
Leonardo está no primeiro ano do ensino fundamental e conta com a ajuda da mãe e da mana para aprender a ler e escreverFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Professora de séries iniciais, ela aponta que as crianças precisam da presença e orientação do professor e do convívio em sala de aula durante a alfabetização.

— A rotina precisa ser trabalhada todos os dias. As crianças não têm essa autonomia, por isso, elas precisam de orientação dos professores para o processo de aprendizagem. A alfabetização é conduzida pelo professor. Na educação infantil, é muito difícil as crianças trabalharem sozinhas, elas precisam de acompanhamento — diz. 

O ensino à distância (EAD) é inovador, mas, para Flávia, é uma ferramenta complexa para ser usada nos anos iniciais.

— Ao se pensar em alfabetização há uma técnica que precisa ser levada em consideração. A presença do professor e do aluno em sala de aula é essencial, nada substituiu o professor neste processo de alfabetizar. Afinal, ele foi preparado e orientado para compreender o tempo de cada criança. Essa relação e troca entre professor e aluno é importante, porque o professor intervém no tempo certo ao ver o desenvolvimento da criança, ao acompanhar o processo de escrita e corrigir o que é necessário. Ele sabe qual a melhor técnica para que a criança aprenda e evolua no aprendizado — completa.

"Os alunos não podem ser prejudicados nesse processo de alfabetização", aponta coordenadora de Educação

Na rede estadual de ensino são 4.450 crianças em fase de alfabetização. A titular da 4ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE),  Viviani Devalle, afirma que as escolas mantêm aulas programadas em um formato diferente.

— A assessoria pedagógica da CRE tem acompanhado o material que é encaminhado às escolas. Os alunos não podem ser prejudicados nesse processo de alfabetização. Estamos buscando atividades voltadas para o conhecimento das letras, números, símbolos e para a junção de letras para formar palavras e estimular o aprendizado — explica. 

Ela reitera que a suspensão das aulas não irá prejudicar a alfabetização dos alunos:

— No retorno às aulas, vamos implantar atividades para acelerar o processo de alfabetizar. Não  haverá prejuízo porque vamos montar uma força tarefa para acompanhar as escolas e as atividades.

O presidente do Sindicato do Ensino Privado (Sinepe), que representa escolas particulares do município, Bruno Eizerik, também acredita que não haverá prejuízo ao ensino.

— É evidente que não é igual ao ensino presencial, mas tenho certeza que as escolas estão fazendo o possível e o melhor que pode ser feito para trabalhar de forma remota dentro do atual cenário que estamos vivendo — diz. 

Ele complementa:

— Quando voltar às atividades presenciais, o conteúdo será revisto e os alunos não serão prejudicados na questão do aprendizado. Faremos o necessário para que eles não sejam prejudicados. 

Estímulo em casa

O processo de aprendizagem também passa pelo o estímulo dos pais. O fator lúdico é essencial nos primeiros anos de alfabetização. O contato com as letras deve deixar a criança à vontade, feliz e confiante, respeitando o perfil de cada estudante. É preciso despertar o interesse para leitura e escrita. Para as especialistas, os pais devem ler e não apenas contar histórias para os filhos:

— Mantenham as crianças curiosas, interagindo com o universo letrado. Elas precisam ouvir histórias, estar em contato com os livros que estimulam essa relação com as letras. Até preparar uma receita com a criança para que ela leia os rótulos pode ajudar nesse processo de aprendizagem — explica Flávia Fernanda Costa.

Para a pedagoga Natália Peretti, os pais têm de estimular os filhos a ter contato com o universo da leitura:

— As brincadeiras nessa fase são muito produtivas para as crianças e despertam bastante interesse, então, é um meio para ajudar no processo de alfabetização.

Natália alerta que esse estímulo deve respeitar o período de alfabetização de cada criança.

— Podem utilizar jogos e brincadeiras, como bingo, quebra-cabeça de letras, jogo da memória de letras, trabalhar o nome da criança e de toda família. As músicas, histórias números e atividades motoras com números também estimulam a criança a aprender — finaliza.

MÃES DRIBLAM ADVERSIDADES PARA ESTIMULAR OS FILHOS

A empresária Merielen Felippi Brehm, 34 anos, é mãe de Isabelle, nove, e Leonardo, seis. O mais novo está na fase de alfabetização e conta com o incentivo da mana mais velha para realizar atividades em casa. Leonardo está no primeiro ano do ensino fundamental no colégio São João Batista.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 14/04/2020 - Estimulado pela mãe, Merielen Felippi Brehm, 34 anos e pela irmã Isabelle Felippi Brehm, 9 anos, Leonardo Felippi Brehm, 6 anos já sabe ler e escrever seu nome. Durante o período de distanciamento social, eles se revezam entre brincadeiras, desenhos e leituras. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14476595) -->
Merielen Felippi Brehm e Isabelle, mãe e irmã, estimulam o pequeno Leonardo a aprender a ler e escrever Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

— Estou tranquila porque ele sabe ler as frases e interpreta. Percebo que está adiantado porque são poucas as crianças que já estão lendo na turma dele. Ele tem a mana mais velha e nós incentivamos muito ele em relação a alfabetização — conta a mãe. 

Ela ressalta que se preocupa com o retorno das aulas, em relação a cobrança dos professores aos alunos, principalmente os mais pequenos.

— O que me preocupa é que para concluir o ano letivo, os professores se sintam pressionados e atropelem o processo de alfabetização e pulem etapas de aprendizado devido ao período sem aula. Tenho receio dessa sobrecarga em cima das crianças e que se eles fiquem estressados — diz.

O pequeno conta que sente saudades da professora e que gosta de fazer os trabalhos com a mana:

— Eu gosto de escrever e de pintar.

A auxiliar de faturamento Tauani Leite lê livros infantis para a filha Eduarda Leite Ferraz, cinco anos. A menina ingressou no colégio no começo deste ano. Ela está matriculada na Escola Municipal de Ensino Fundamental Américo Ribeiro Mendes.

— Em casa eu leio para ela e brincamos de cortar as letras, pintar e desenhar. Ela teve poucos dias de aula e estava começando a aprender. Fazemos as vogais e tento estimular com os livros e o contato com as letras para que ela siga curiosa e interessada em aprender a escrever — afirma.

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