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Pandemia15/04/2020 | 19h35Atualizada em 15/04/2020 | 21h21

"Ele lutou esses 30 dias", disse esposa de idoso que morreu de covid-19 na Serra

Morador de Serafina Corrêa estava internado em Bento Gonçalves desde 13 de março

"Ele lutou esses 30 dias", disse esposa de idoso que morreu de covid-19 na Serra Lucas Amorelli/Agencia RBS
O aposentado Etelvino Mezzomo, 64 anos, foi cremado na tarde desta quarta-feira em Caxias do Sul Foto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Em uma área verde do Memorial Crematório São José, em Caxias do Sul, Jussara Bordin Mezzomo, 59 anos, deu adeus ao marido, Etelvino Mezzomo, 64, na tarde desta quarta-feira, sem poder ver ou tocar o corpo dele, antes da cerimônia de cremação. O aposentado, morador de Serafina Corrêa, mas natural de Casca, é a primeira vítima fatal da covid-19 na Serra e a 19ª do Rio Grande do Sul. Ele estava internado no Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, há 33 dias.

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O idoso procurou atendimento médico no dia 13 de março, quando foi internado. Apresentou uma piora no quadro cinco dias depois e foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu em estado grave até esta manhã. Segundo a esposa, a morte foi causada por insuficiência respiratória. Ela conta que ele tinha enfisema pulmonar. O problema o tornaria mais frágil à ação da covid-19. Jussara relatou ainda que, quando o marido foi internado, ele já estava com pneumonia. 

– Após a internação, ele pediu que eu fosse para casa cuidar do filho, não queria que ficasse com ele, porque tinha plano de saúde e estava bem assistido. Na terça (17 de março), vi e falei com ele por vídeo e percebi que ele estava com falta de ar. Ele me dizia: "não, Jussara, estou bem, fica tranquila, vai dar tudo certo. Estou aqui com os médicos, não te preocupa" – relatou a esposa.

A última vez que Jussara ouviu uma palavra do marido foi no dia 18, quando ele estava prestes a entrar na UTI:

– Ele falou comigo e eu disse: "Pai tu não estás nada bem". Ele disse: "Realmente, não estou bem". Uma hora depois, o hospital me chamou para ir urgente a Bento, porque ele ia ser internado na UTI. Entrei com ele, até a porta. Ele olhou para mim e disse: "Eu não tenho esse vírus". Ele continuava afirmando porque tinha muito medo disso, pelo problema pulmonar dele, sabia que o pulmão não ia resistir. Só que ele lutou esses 30 dias.

Na tarde daquele mesmo dia 18, o hospital divulgou o resultado do exame que apontou positivo para infecção pelo novo coronavírus. Os dias que se seguiram foram de muita agonia, expectativa, tristeza e sofrimento, segundo Jussara. Com a ajuda de uma enfermeira, ela falava com o marido por meio de um celular. E acredita que, mesmo sedado, ele a ouvia.

– Os médicos dizem que não, mas acredito que ele me ouvia. Falei muitas vezes com ele por telefone. Inclusive no dia do aniversário dele, cantamos parabéns – conta Jussara, referindo-se ao dia 8 deste mês, quando seu Etelvino completou 64 anos.

Em função das restrições devido à pandemia, a cerimônia que antecedeu a cremação do aposentado, que já tinha sido agricultor e motorista de um supermercado, ocorreu com caixão fechado e com número restrito de familiares. Estavam presentes, além de Jussara, um primo e um irmão. O único filho do casal, Thiago Bordin Mezzomo, 30 anos, é cadeirante e não participou. 

Os familiares não tiveram sintomas e testaram negativo para o novo vírus. A esposa diz que diferente do que foi suscitado por autoridades de saúde, o marido não teria contraído o vírus durante viagem que fez ao Paraguai. Ela afirma que ele já tinha febre e outros sintomas quando deixou a cidade em direção ao país vizinho e só piorou durante a viagem. Um homem que viajou com ele também teve a doença, mas se curou.

 CAXIAS DO SUL , RS, BRASIL, 15/05/2020Etelvindo Mezzomo, 64 anos, aposentado, morador de Serafina Corrêa, é a primeira vítima fatal da covid-19 na serra e 19º no estado do Rio Grande do Sul.(Lucas Amorelli/Agência RBS)<!-- NICAID(14478011) -->
Em função da pandemia, um número reduzido de familiares participaram da cerimônia de despedidaFoto: Lucas Amorelli / Agencia RBS

Serafina Corrêa está assustada, diz prefeito

Serafina Corrêa, com cerca de 17 mil habitantes, foi a primeira cidade da Serra a registrar óbito decorrente de covid-19. Desde que o caso de seu Etelvino Mezzomo veio à tona, em meados de março, a rotina da cidade mudou. Entrou em quarentena sete dias antes do que os demais da região, de acordo com o prefeito em exercício, Valdir Bianchet.

– Estamos muito preocupados porque sem morte já é bastante pânico, e com uma morte fica bem pior. A situação do município parecia que estava voltando à vida normal, mas agora com esse fato volta todo aquele pânico Claro, que o município está fazendo a sua parte com a organização do setor da saúde. Mas, infelizmente, é uma morte que traz muita preocupação para os munícipes – descreveu o prefeito, lamentando a morte do morador.

A cidade teve cinco casos confirmados, entre eles, o do seu Etelvino. Dos outros quatro, dois já se curaram e dois estão internados em um hospital de Passo Fundo e passam bem – um deles é o ex-prefeito. Outras 12 pessoas fizeram teste, mas não receberam resultado ainda e cerca de 80 estariam em quarentena por serem familiares de casos confirmados e suspeitos.

– Vamos vivendo com esse drama, torcendo que Deus nos ilumine. Ser administrador num momento desses é muito difícil. Temos pressão de todos os lados. Comércio fechado. Ninguém mais tem paciência – desabafou Bianchet.

O prefeito esperava o novo decreto do governo estadual divulgado na tarde desta quarta para decidir sobre alguma alteração na cidade. Mas, com a prorrogação das medidas estaduais, a prefeitura deve manter o comércio lojista fechado, abertos os serviços essenciais e indústrias funcionando com restrições.

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